23.10.07

Manuela, LLM (estudos franceses e ingleses) ramo pedagógico. Irlanda, Suécia, México

Desde sempre tive ânsia de aventura e desconhecido….infelizmente não tinha possibilidades financeiras de viajar. Sendo estudante universitária, lembrei-me da melhor maneira de conhecer outro país…arranjar uma bolsa viver e estudar lá! Passei um ano lectivo na Queen’s University of Belfast, Irlanda do Norte, com o programa Erasmus. Para resumir, digamos que foi o melhor ano da minha vida: conhecer e conversar com pessoas novas de todo o mundo (principalmente Europa e Ásia), fazer amizades que ainda hoje conservo, saber que sou capaz de me “desenrascar”completamente sozinha. Não perdi nenhum ano lectivo, fiquei completamente fluente na língua, além de ter usufruído de um dos melhores sistemas de ensino europeu (tive direito a tudo: “tutorials”, “lectures”, seminários, desporto e residência universitária). Enfim, encorajo qualquer estudante a participar no programa Erasmus!

Depois desta experiência, só fiquei com mais vontade de viver noutros países. Tive primeiro de acabar o curso, e depois lá veio a grande pergunta, o que vou fazer agora? Um curso de letras é Portugal é quase sinónimo de desemprego.

Lá me inscrevi noutro programa europeu, o LINGUA (consiste em ser assistente de língua estrangeira numa escola do ensino público europeu), e calhou-me um destino pouco glamoroso: uma aldeia no sul da Suécia! Não foi a experiência mais divertida do mundo, confesso, mas lá estava eu outra vez a viajar e conhecer novos lugares. Aproveitei para visitar amigos que estavam espalhados por vários países circundantes, (viajando de autocarro, ficava baratinho), por conhecer melhor a Suécia, por aproveitar a cultura (saunas, jacuzzis, desporto ao ar livre e pouco mais….). Não posso dizer que adorei, mas aproveitei ao máximo, adquirindo experiência profissional na minha área quando sabia que se tivesse ficado em Portugal estaria provavelmente a trabalhar numa “call center”. Tinha condições de trabalho incríveis: o meu próprio gabinete, material escolar grátis (canetas, dicionários, etc…), até a câmara me emprestou uma bicicleta!

Aliás ao nível profissional encontrava-me numa situação bastante irónica: sabia que regressar a Portugal era equivalente de desemprego (baseando-me pela situação da maior parte dos meus colegas de curso). No entanto havia (e que eu saiba ainda há) muito trabalho na Suécia para professores! Por exemplo, ganhei bastante dinheiro extra fazendo substituições de professores de Inglês e Francês. Mas a falta de professores é tanta que até me pediram para fazer substituição das disciplinas de Desporto e Espanhol (não, não estou a brincar!). Poderia facilmente ter lá ficado a dar aulas……optei por não o fazer porque não me conseguia identificar com as pessoas nem a cultura (a escola acabava às 15h e depois toda a gente ia para casa, já não havia nada para ninguém, nada de vida social!) e não me estava a divertir nem a conhecer pessoas, que era o meu objectivo!

De volta a Portugal, e não tendo outra perspectiva de trabalho que numa Pizza Hut…..resolvi agir! Sendo bilingue de Francês / Português, debrucei-me nos sites de emprego para professores de Francês no mundo: tinha encontrado o que queria……oportunidades de trabalho no mundo inteiro (principalmente em alianças francesas ou institutos). Concorri a várias vagas. Ora bem, ainda hoje não faço ideia como, mas chamaram-me!

Recebi um mail com oferta de emprego de uma Aliança Francesa num “cu de judas”…no México!! E precisavam de professor dentro de três semanas, porque lá o ano lectivo começa em final de Agosto. Para quem queria aventura e desconhecido, esta era “the mother of all adventures” . Eu que tinha chegado da Suécia havia dois meses, decidi aceitar, sabendo que me arrependeria para sempre se não aproveitasse esta oportunidade. Os meus pais estava preocupadíssimos, afinal a única garantia que havia mesmo alguém a oferecer-me trabalho no outro lado do mundo era um mail! Resumir, comprei um bilhete de avião com data de regresso um mês depois (“just in case”!) e parti. E esta revelou-se uma experiência tão positiva que fiquei de seguida mais um ano, desta vez noutra aliança noutra cidade no México. A nível profissional tive oportunidade de dar aulas em empresas e escolas primárias, assim como numa universidade, trabalho esse que NUNCA conseguiria em Portugal. A nível pessoal não tenho palavras para o enriquecimento cultural (visitar esse belo país de norte a sul onde cada região tem mil e uma coisas para ver) e a abertura das pessoas, a simpatia dos alunos, as festas, a dança, a comida……

Só tenho a dizer para aqueles que hesitam frente a uma oportunidade de trabalho no estrangeiro: não recusem! Essa pode ser uma grande oportunidade para vocês, tanto a nível pessoal como profissional! Mesmo que não venha a ser, há sempre algo a ganhar ou aprender ..e pensem que no vosso regresso terão sempre vantagem no CV. Eu sei que é triste ter de ir para o estrangeiro para poder melhorar as nossas hipóteses de emprego, mas sinceramente não custa assim tanto (pensem nos imigrantes dos anos 70 que iam trabalhar para o estrangeiro sem falar a língua, sem conhecerem ninguém, sem dinheiro, sem internet, com viagens de dois dias para ir a casa….) nós falamos a língua, se não a falamos teremos decerto tempo de a aprender, temos Internet e voos baratos para as saudades ….não pensem duas vezes!!!!!

Ainda não falei do meu regresso…também no México poderia ter ficado porque há lá muito trabalho para professores de Francês (ironia de novo, em todos os sítios onde estive era fácil arranjar trabalho e confiarem-nos novas missões!). No entanto achava que México é muito longe de Portugal. As viagens de avião são caríssimas, pelo que nunca conseguia poupar dinheiro. Claro que o que eu ganhava dava-me para sustentar-me e viajar, mas não poderia continuar assim para sempre, sem conseguir pôr dinheiro de lado. Este aspecto, além da enorme distância geográfica da família e amigos, combinado com o facto de já ter consolidado um CV muito bom, (desde formação a empresas, a cursos intensivos, realização de exames, fiz de tudo) dava-me confiança para tentar a minha sorte em Portugal. O que aconteceu! Comecei a dar aulas em escolas de línguas (principalmente formação em empresas) até conseguir um trabalho fixo e interessante numa escola só, tudo graças à experiência e “know-how”profissional que consegui ganhar no estrangeiro.

3 comments:

Era uma vez um Girassol said...

Manuela e Filipa, li as vossas histórias de sucesso e coragem.
Sim, porque é preciso coragem e tenacidade para sair do "quentinho" e dar um salto no desconhecido.
Por tudo aquilo que li até hoje aqui no Gap, estas experiências extraordinárias de jovens licenciados procurando novos nichos de trabalho, só posso dizer que me orgulho muito.
Porque sempre acreditei que os portugueses possuem igual ou superior capacidade de iniciativa e trabalho comparada com os outros europeus.
Um grande abraço!

p.j. said...

Isso nao e' novidade, nenhuma.

Nao me venham dizer q o problema de Portugal e' da falta de produtividade, pois os emigrantes portugueses espalhados por essa Europa fora, sao dos mais produtivos nas mais variadas areas.

O problema de Portugal e' mesmo dos senhores feudais que ainda existem e q tao cedo nao vao abrir mao da vida de lords q tem.

Se os emigrantes sao produtivos, das duas uma:
-ficam produtivos mal saem do pais por uma accao miraculosa
-o problema em PT esta' nas chefias

Votem na que fizer mais sentido p voces

nat said...
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