19.1.08

João André, Licenciado em Ciências. Londres

Pois bem, comigo não foi diferente. Como tantos outros não pude deixar de lutar contra uma vida que insiste em contrariar todas as nossas expectativas, todos os nossos sonhos e anseios, mesmo se os mesmos se resumem a algo tão simples como uma casa à qual podemos chamar nossa, um emprego e algum dinheiro no bolso para gerir com saber e querer. Também eu sou professor, de ciências, e quando conto a quem comigo trabalha existirem por terras de Portugal dezenas de milhar de professores no desemprego, ninguém me acredita. Não quero com isto dizer ser a Inglaterra uma qualquer terra prometida, porque não só não o é como, caso esta aposta não resulte, tenho toda a certeza de amanhã ser mais um dia onde duas pernas e dois braços persistirão em animar o meu corpo e esta vontade. Importante é acreditar. Também eu vivi o desemprego e ainda hoje carrego comigo esse sentimento de culpa de quem acha ser nossa a responsabilidade de um dia encarar tal situação. Mas não é, a culpa não é nossa, e num repente somos mais um desses casos que dão razão à psicologia. Porque crescemos condicionados à função de produzir.

Estive um ano sem ser colocado e cedo percebi não haver lugar para mim no universo tão pequeno que é Portugal, um País de cunhas, cunhados e conhecidos onde não se valoriza o mérito pessoal e onde a oportunidade é para quem já a tem, e não para quem a queria. Mas emigrar foi sempre a última opção. Não há alegria em deixar para trás toda uma família e os amigos que se criaram durante uma vida. E por tal, e tentando fugir ao óbvio, decidi enveredar por outro curso e outra área: a área da enfermagem. Afinal, ainda vivemos num país onde a opinião geral é de que "o importante é ter saúdinha". E conquanto haja saúdinha para tratar, esperava eu, como enfermeiro, não ter de emigrar. O resultado prático foi ter de desistir do curso ao fim de dois anos e meio, porque a exigência do mesmo reprova por um ano quem chumba a uma só disciplina de estágio, e a vida não nos dá espaço para andar por aqui a perder anos de vida, não quando já me crescem os cabelos brancos, e não numa sociedade ansiosa por drenar a juventude que nos vive nos braços. Desisti de enfermagem numa sexta-feira e comecei a preparar a partida no sábado, uma partida que levaria ainda um ano e meio a concretizar. Na quarta-feira seguinte estava a trabalhar no buraco dos licenciados e dos desgraçados: um call-centre da TV Cabo. A experiência sui generis de se ser insultado ao telefone oito horas por dia só não deitou por terra toda a pouca auto-estima que ainda me sobrava porque pelo meio fiz a viagem tão prometida à minha namorada (fomos à Suécia) e nunca, mas mesmo nunca, deixei de procurar um emprego. Graças à internet (na Internet we trust) coleccionei listas formidáveis de contactos electrónicos de escolas públicas, escolas particulares, centros de formação, jornais e revistas, estágios profissionalizantes e estágios não remunerados, até finalmente, oito meses volvidos num rolo de carne em sangue, poder saltar de um buraco na direcção de outro: os centros de estudo. Se por um lado fugi ao insulto, por outro a exploração mercantil a que somos sujeitos é, em definitivo, um insulto em si. Mesmo tendo em conta o facto de ter feito algum dinheiro e agora, olhando para Portugal, saber haver professores a receber cento e cinquenta euros a troco de meio horário de trabalho (o qual é, por norma, pago a quadriplicar). Como não podia deixar de ser, continuei à procura de emprego. pelo caminho soube haver por terras de Inglaterra uma grande falta de professores de ciências. Meu dito, meus amigos, meu feito. Estabeleci os contactos e tratei das qualificações. Estávamos no início de 2007, mês de Janeiro, e ao fim da terceira semana de Fevereiro já tinha o especial certificado na caixa do correio. Estava tudo preparado para partir para Inglaterra! No entanto, faltava o mais difícil: partir. Essa fase, que foi a última, ainda me levou sete meses, só tendo aqui chegado corria o ano no mês de Setembro. Para trás deixei toda as lágrimas em pequenos saquinhos debaixo das asas do avião, e comigo trouxe a certeza cega de nunca mais voltar a um país que, lentamente, nos atira para longe de todos a quantos queremos. Porque não há alternativas. Ou isso, ou o a resignação de uma vida parva e pequena, mesquinha, onde "o que importa é que haja saúdinha...", dia após dia, até nada mais haver senão uma mão de terra onde o licenciado acaba por se conhecer a plantar uma batata e uma couvinha porque a auto-subsistência é o futuro cada vez mais presente. Ao fim de três semanas estava a trabalhar, e hoje estou numa escola de ensino especial em West Ham, Londres, onde me pagam e onde recebo, onde trabalho e onde aprendo. Pago as minhas contas e não sou mais um filho de Portugal à procura de contrariar esse epíteto de "geração rasca", mesmo sendo eu, à data, um dos melhores alunos da escola. Não, isso não conta. O que conta é a batalha geracional, e essa também não escolhe prisioneiros.
Os filhos de Abril são mais que mil e gritam ao cair.
Daqui por uma semana estarei a viver com a minha namorada por terras de Londres, à procura de cumprir a promessa de não mais nos separarmos. O que acontecer daqui em diante é a vida, a mesma que nos é negada porque vedada, em terras de Portugal. As saudades são muitas, mas nada há que me espere no regresso a casa senão um princípio de fome. Poucos amigos ainda fiz e a maior parte do meu tempo tem sido dedicada ao trabalho, mas aos poucos, creio, uma vida hei-de construir e o futuro está ali à porta, à espera do meu consentir, para que eu o deixe entrar dentro da sala-de-aula, de mala às costas em direcção à carteira da frente, onde se senta e onde abre o livro para mais um dia de aulas.

João André,
http://www.asnoticiasdaflorestaverde.blogspot.com/

4 comments:

Catarina said...

Olá João André... sabes com o que me identifiquei mais?
Eu quando acabei o meu curso também fui trabalhar para um call center da tv cabo e foram os dois meses mais infelizes da minha vida :D sim porque ser insultada 8h por dia não é patra ninguém!!!!
Ah como eu queria ir para Londres... talvez alguém como tu me possa elucidar melhor!

Inês said...

ola João!O teu texto está fenomenal. Retrata o verdadeiro Portugal onde não se valoriza o mérito pessoal, e onde apenas os "cunhados" se safam e conseguem VIVER.Outros, como nós, apenas sobrevivem e porque têm país que podem ajudar. Após alguns meses a tentar encontar emprego e de fazer um estágio não-remunerado(como todos agora) decidi ir trabalhar para um call-center da tvcabo (unico sitio que ainda vai aceitanto licenciados) onde estou há 6meses (a ser humilhada por clientes), para juntar "migalhas" para finalmente ir para Londres em Maio tal como planiei há alguns meses.
Este não reconhecimento do mérito teima em persistir e crescer. Decidi há já algum tempo deixar de me culpabilizar por não arranjar "emprego" e tentar salvar a pouca auto-estima que este país ainda não me levou e que se eu me for embora rapidamente, nunca vai levar.


Ines, Coimbra

nat said...

Joao, o texto está fantástico!
Nem tudo o que se vive fora de Portugal sao rosas (e nao é o erasmus que ensina isto, nem a experiencia de um ou dois anos num país). A adaptacao cultural é a mais dificil (nao a profissional), sei por experiencia pessoal (6 anos a viver fora) e por testemunhos de amigos. No entanto, a triste realidade é que tudo o que descreves sobre a situacao profissional em Portugal é a pura verdade - custe a quem custar.

Anonymous said...

Olá João.
Gostei da tua exposição.
De facto não é fácil.
Saltou-me à vista a história de teres estado num call center da tv cabo.
Como vejo tantos anúncios de emprego relativamente a operadores de telemarketing, poderás dizer-me quanto se recebe num trabalho desses?
Ninguem me consegue responder a esta pergunta...Obrigado. Vitor Saraiva