3.9.08

Eduarda, Senior Designer, Noruega

Comecei a trabalhar, ainda estava no ultimo ano da faculdade. Optei por começar a trabalhar antes do final do curso, não podia dar-me ao luxo de estar à espera de emprego quando terminasse.
Trabalhei durante 7 anos em vários sítios, até um dia, por mutuo acordo, sair. Fiquei quase 2 anos com sub. de desemprego, por opção e, também, desiludida e cansada com o sistema. Trabalhos como freelancer, mas não era o suficiente. Ao fim deste tempo, arranjei emprego, mas em termos salariais, estava muito diferente em relação ao salário que havia tido no meu ultimo. Desilusão das desilusões, aceitei, durante 1 ano, receber metade, sim, leram bem, metade do que, em tempos, eu recebia.
Há muito que pensava em ir para fora, fui sempre menina para arriscar, mesmo sem certezas, mas ir para fora, seria uma decisão muito importante e isso fez-me retrair um pouco. Por saudades dos meus pais, do meu cão, da minha casa, dos meus amigos...
Decidi-me em Novembro de 2007.
· Decidir o país: Inglaterra ou Noruega?
· Enviei portfolios para os dois.
· Melhores prespectivas na Noruega! Optei por este!
· Melhores salários! (Bom motivo).
· Respostas positivas ao meu portfolio e quase imediatas! É mesmo aqui que quero ficar!
Estava indecisa entre Oslo e Arendal! Decidi-me por Arendal. O mesmo salário que me ofereciam em Oslo, cidade muito mais barata e mais pequena.
O facto de ter sido tão bem recebida, de ganhar muito mais do que no meu país, de o meu trabalho ser reconhecido e recompensado, vale todo o esforço.
Adaptei-me bem a esta minha nova vida, e gosto:
· gosto de viver aqui;
· gosto do meu trabalho.
Tenho saudades, é claro, saudades da minha família, do meu Mooch, dos meus amigos... do cheiro da minha casa.
Mas aqui sou feliz!
Ás vezes nem consigo acreditar que aqui estou. Sorrio de felicidade e tento acreditar que é verdade! Foi tudo tão rápido, uma mudança de vida tão rápida que nem deu para parar e pensar no que de facto aconteceu!
A primeira vez que aqui vim, em Dezembro, à entrevista, senti aquele friozinho na barriga e ao mesmo tempo uma sensação de descoberta e deslumbramento. Nunca tinha ouvido em tal nome, Arendal, e muito menos onde ficava. (Como um amigo meu disse e muito bem: "Parece nome do Senhor dos Aneis")
Nem imaginam a minha euforia, chegar a Oslo por 4 dias apenas, e pensar que só iria ter entrevistas lá, e de repente recebo um email em como me queriam conhecer em Arendal. Faziam questão, nem que fosse no fim de semana. E agora?!?! (pensava eu). Uma cidade a 300 Kms a Sul de Oslo, e sem saber bem como ir. Mas com os horários do bus e muita vontade, lá fui eu... 4 horas para "baixo" e mais 4 para "cima". E qual não foi o meu espanto, fui recebida como uma verdadeira princesa, com tudo a que tenho direito :)
Uma calorosa recepção, uma cidade "cozy", um almoço divino ao som do piano e uma entrevista que foi decisiva "... and you have one year childbirth license." O quê?!?! - pensei eu - Estou a ter a primeira entrevista, e eles já me estão a dizer que tenho 1 ano de licença de parto?!?! Incrível, não é? Se algum dia em Portugal isto acontece!?!

http://eduarda-na-noruega.blogspot.com/

19.7.08

Mónica Silva,Advogada, Lausanne, Suíça

Ora bem como muitas outras histórias aqui contadas também a minha se enquadra dentro do mesmo universo.
Apesar de ter nascido em França desde os 2 anos que vivi no Porto.Depois de já ter pensamentos próprios sempre aspirei estudar no estrangeiro. Felizmente, tive essa oportunidade e ainda por cima na cidade fantástica de Paris. Estudei na Universidade de Nanterre, mais uma vantagem: Faculdade com bastante tradição, que "carrega" em si o peso de ter dado o mote para o Maio de 68.
Voltada desta experiência inolvidável e única da minha vida acabei o curso e, de seguida, iniciei o percurso na OA. Depois de um estágio de 18 meses (que na prática foram 2 anos)finalmente podia dizer: sou Advogada!!Concretizei assim no final de 2006 aquilo que sempre desejei.
Bom depois começou o envio de CV's e algumas entrevistas.
Em Janeiro de 2007 fui trabalhar para uma empresa (receber 600€), em Maio já estava a trabalhar noutra (aqui a exercer funções no departamento jurídico e a ganhar 700€). Entretanto, no mês de Julho fui operada a um ombro e eis que me surge a oportunidade da minha vida.
Como estava de baixa em razão da cirurgia efectuada pude estar presente no Campeonato do Mundo de Juniores de Polo Aquático como oficial de mesa (sou jogadora e árbitra). E no último dia da competição uma pessoa veio falar comigo e perguntou-me qual era a minha profissão. Disse que era advogada e por ali ficamos.
Para meu espanto no dia seguinte essa pessoa liga-me e era só o Director Executivo da FINA (Federação Internacional de Natação)a convidar-me para integrar o departamento jurídico deles.
Sem mais demoras, enviei CV, no fim de Agosto vim a uma entrevista e no dia 1 de Outubro comecei a trabalhar.
Foi de loucos e também preciso muita coragem.Deixei família,amigos, namorado e toda uma vida em Portugal.Confesso que me custou e ainda custa mas como costumo dizer:"não se pode ter tudo na vida".E esta oportunidade eu não podia perdê-la.
Como atrás referi custou-me e custa-me estar longe de tudo e todos e,portanto, ao contrários dos muitos testemunhos que aqui li posso dizer que quero voltar. Mas vou voltar com a certeza de que poderei concretizar todos os meus projectos.
Acho que todos os jovens deviam experimentar algo fora de Portugal para não ficarem restringidos àquele "Mundinho". Mas depois regressem para levaram o vosso conhecimento aos pobres de espírito que se julgam muito bons e não passam de uns incapazes de fazer seja o que for para o País evoluir.
Os meus cumprimentos a todos os que saíram e também aos que ambicionam voltar.

(monica_silva20@yahoo.com.br)

27.6.08

Alexandra, Psicóloga social e das organizações, Luxemburgo

Sou licenciada em Psicologia Social e das Organizações, pelo ISCTE (geração 1998-2002) e trabalho no Luxemburgo, no departamento de formação de uma multinacional de auditoria. Descobri este blog e resolvi partilhar a minha história também.

Ainda na faculdade apaixonei-me pelo meu actual marido, e decidimos passar o resto da vida juntos. Quando acabámos os cursos, no mesmo ano, sentámo-nos a pensar: o que é que vamos fazer na/da nossa vida? E fizemos as seguintes escolhas:
1. Trabalhar na área da nossa preferência, no meu caso RH/formação, no caso dele gestão.
2. Ter 4 filhos, e estar presentes na educação deles
3. Ter uma casa grande (não enorme, mas para 4 filhos, estão a ver...)
4. Quando os putos estiverem criados e emancipados, trabalhar em fundações de desenvolvimento, ou (no meu caso) abrir um café.

E estabelecemos metas temporais para estes objectivos, e definimos o que seria preciso para as atingir. Fizemos as clássicas análises swot e planeamentos a 5, 10 e 15 anos.

Desta análise, tornou-se evidente que este país não servia - temos um dos piores desenvolvimentos económicos da Europa, salários muito abaixo da média europeia, um sistema administrativo, fiscal, de saúde e de educação muito mau, pouquíssimos apoios à família e à maternidade e um custo de vida elevado.

Então pensámos, "onde é que vamos encontrar a antítese disto? Onde é que será fácil realizar estes objectivos ambiciosos?". Com o bendito espaço Schengen, a Europa é o nosso país!

Voilá, no Luxemburgo, que tem os salários mais elevados da Europa, uma máquina administrativa simples e eficaz, um bom sistema público de saúde, enfim, resumindo, todos aqueles pontos atrás mencionados.

E como é que chegamos lá? Pois, seria boa ideia arranjar emprego numa multinacional onde pudéssemos pedir transferência interna.

E foi o que fizémos. E cá estamos.

De ressalvar que quando saímos de Portugal tínhamos ambos uma situação profissional muito boa, comprámos casa, estávamos bem integrados socialmente, não estávamos desempregados nem com a corda na garganta.

Mas queríamos mais e melhor, e por isso fomos para o Luxemburgo. Aqui vivemos melhor, com salários muito confortáveis e uma qualidade de vida sem comparação.

E pronto, é isto. Acho que o que faz confusão às pessoas é o facto de a nossa cultura nacional ser tão avessa ao planeamento e à definição e prossecução de objectivos que até custa a crer numa história destas.

aphneves@gmail.com

2.6.08

Guilherme Silva, Engenheiro Informático, Waterford, Irlanda

Enquanto tirava o curso, na FEUP, nunca pensei muito em ir para o estrangeiro, não sei bem porquê. Por isso, nunca tive vontade de concorrer às vagas de Erasmus. Entretanto, fiz o estágio de final de curso numa empresa no Porto, e por lá continuei depois de formado (2005). No total, cerca dois anos.

Não me podia queixar do emprego. Estava relativamente bem. Mas começou a surgir uma vontade de sair de Portugal. Para onde, não sabia.
Um ano depois de amigos meus terem ido para a Agência Espacial Europeia, na Alemanha, através de um programa da ADI (Agência de Inovação), finalmente me decidi a tentar uma aventura lá fora.
Em Abril de 2007, estava em Frascati, Itália, perto de Roma. Não tendo feito Erasmus, acabei por ter ali uma experiência não muito diferente. Como trainee na ESA, conheci muitos outros numa situação semelhante. As pessoas que conheci, os sítios por onde passei, e a experiência em si contribuiram para que fosse um dos melhores anos da minha vida.
Com a possibilidade de ficar por mais um ano optei, no entanto, por experimentar algo novo. Depois de várias pesquisas, e de ler vários testemunhos, muitos dos quais neste blog, fiquei com vontade de conhecer a Irlanda.
Depois de várias candidaturas, a primeira possibilidade concreta foi Waterford, no sudeste. Uma cidade pequena, mas que me pareceu um bom ponto de partida para descobrir o país.
Vim para cá no final de Abril de 2008. Ainda estou para descobrir se há mais algum português por aqui, já que a maior parte deve estar em cidades maiores.
Por quanto tempo cá ficarei, ou para onde irei a seguir, não faço ideia. Embora considere a possibilidade de voltar a Portugal, penso que nos próximos tempos estarei mais inclinado para continuar a aventurar-me cá fora. Não por pensar que não tenho lugar no meu país. Talvez esteja ainda à procura do meu lugar neste mundo.

eusouumdiospiro.blogspot.com

24.5.08

Romana, Licenciatura em Assessoria de Administração e pós-graduação em Gestão internacional, Dublin

Desde que decidi de mudar para a Irlanda, já me perguntaram uma centena de vezes o que me trouxe por cá. Nunca consegui dar uma resposta directa…. Começava sempre "Pois…. Várias razões…. A experiência de viver noutro país, melhores condições de trabalho, abrir o meu mundo a novas realidades, …"
A verdade é que foram tantas as razões que me levaram a este passo que é difícil dar uma resposta concreta.
Desde que me lembro como pessoa que tenho um insaciável desejo de viajar, mas nunca tive oportunidade (ou nunca fiz por ter!). Os pais não podiam e os trabalhos de verão eram para ajudar nas despesas da escola.
Quis fazer erasmus, mas não pude por razões financeiras e concorri ao INOV Jovem mas não fui aceite.
Terminei a licenciatura em Dezembro de 2003. Voltei para a casa dos meus pais e comecei a procurar trabalho. Entre muitos CV's enviados para a minha área, tentei também um trabalho como Au pair, mas não gostei das condições, tentei trabalhar em cruzeiros mas não tinha experiência. A ideia de sair de Portugal, de poder finalmente viajar era algo que não me saia da cabeça.
Comecei a trabalhar em Fevereiro de 2004 a ganhar uns míseros 500€ com contratos mensais. Apesar da miséria de ordenado poupei dinheiro para finalmente fazer a minha primeira viagem. Tinha 23 anos. Depois desta viagem percebi quanto tempo tinha perdido… não queria parar.
Entretanto, por ingenuidade achei que seria boa ideia fazer uma pós-graduação em gestão internacional no ISCTE. Achei que me iria abrir novas portas no mundo do trabalho.
Custou-me os olhos da cara, mas não me arrependo. Apesar de não me ter proporcionado grandes mais valias a nível profissional (e de deixar muito a desejar considerando o custo) foi o empurrão que precisava para mudar a minha vida.
Vivi pela primeira vez num ambiente multicultural e fiquei fascinada! Tive professores desde a Alemanha ao Japão e colegas de todos os pontos do mundo.
Ter conhecido estas pessoas abriu-me os olhos… vi que existe outra realidade fora do meu "mundinho".
O meu ordenado e a minha situação no trabalho melhorou ligieramente, mas continuava com um ordenado que não me permitia sequer sair da casa dos meus pais. Sentia-me a sufocar… precisava de uma mudança!
Comecei então a sondar a oferta de trabalho no Reino Unido e na Irlanda. Depois de muito pesquisar percebi que a Irlanda – Dublin - seria melhor opção por ser um país acolhedor, muita oferta de trabalhos, cidade pequena, menor taxa de desemprego da EU (era, certamente a situação já se alterou), grande abertura a estrangeiros, entre outros.
Em Setembro de 2006 decidi: Vou viver para a Irlanda!! Enviei vários CV's, recebi muitas respostas, mas todos me aconselhavam a mudar para cá pois seria mais fácil para a deslocação a entrevistas.
Felizmente tive o apoio de todos os amigos e família, mas as perguntas repetiam-se entre estes e também entre os curiosos:
"Mas tens trabalho?" Não!
"E tens casa?" Não!
"E tens quem te ajude?" Não!
"E vais assim?" Vou!
Não, não tinha nada, para além de umas poupanças para recomeçar a minha vida e um hostel marcado para uma noite.
Não me queria transformar numa conformista. Frases como: "pois é assim a vida", "é o país que temos", "sempre quis fazer isto ou aquilo, mas nunca fiz porque…" deixavam-me a pensar "não, definitivamente não quero passar o resto da vida a queixar-me sem fazer nada para mudar a minha situação. Ou adapto-me ou mudo!". Resolvi mudar.
Conseguimos sempre arranjar desculpas e justificações para não fazermos o que queremos, quando a realidade é que somos comodistas e temos medo de mudanças e dos "e se's" – "e se não corre bem?", "E se não me consigo adaptar?", "E se não arranjo trabalho?!"
Eu já tinha adiado tempo demais!
No dia 1 de Janeiro de 2007 parti para a Irlanda. Ano novo, vida nova!
Comecei por trabalhar num pequeno escritório de contabilidade no centro de Dublin. Não gostei! Mas fiquei feliz porque consegui este trabalho ao fim de uma semana e meia, só precisava de algo para começar.
Apesar de ter conseguido com bastante rapidez, recebi um mail de Portugal ao fim de uma semana a perguntar "Afinal não é assim tão fácil arranjar trabalho como tinhas pensado?" HUMMM???? Não vim para cá à espera de ter todos os empregadores à minha espera no aeroporto com cartazes com o meu nome!!!!!!
Casa arranjei ao fim de dois dias. Muito simples, partilhada com irlandeses e era que precisava para por as minhas coisas e ter uma morada para tratar de conta bancária e PPS.
Dois meses mais tarde mudei de casa e devo ter arranjado o apartamento mais barato do centro da cidade (tendo em conta as boas condições).
A casa trazia um brinde
:-) Conheci nesta casa aquele que será o meu marido no próximo ano.
Seis meses depois mudei de trabalho. Estou agora numa multinacional a trabalhar como account manager, onde existe uma grande variedade cultural.
Tenho um ordenado com que nunca sonhei em Portugal. No primeiro ano consegui viajar todos os meses (algumas viagens de trabalho), enquanto que em Portugal só o conseguía uma vez por ano.
Neste momento estamos em regime de poupanças porque eu e o meu namorado decidimos casar no próximo ano e fazer um gap year para viajar pelo mundo de malas às costas. Aqui consigo poupar um montante superior ao que era o meu ultimo ordenado em Portugal.
Estou feliz aqui, mas tal como em Portugal não me queixo muito. Sim, como todos, tive muitas dificuldades de adaptação a alguns hábitos estranhos dos irlandeses e claro, ao tempo!
Mas mais uma vez disse a mim mesma "ou adaptas-te ou mudas". Resolvi adaptar-me.
Da comida nem me queixo! É verdade que não consigo encontrar bacalhau salgado, nem pastéis de nata e tenho que pagar mais de 2.50€ por um café, mas sempre comi do bom e do melhor da cozinha italiana e portuguesa.
Um dia, um casal de italianos disse que não tinham gostado de Portugal porque não tinham encontrado boa pasta. Fiquei chocada!! Como é que eles podiam ir para Portugal à procura de pasta??
Desde que ouvi este comentário, percebi que estava a fazer o mesmo… como é que posso vir para aqui e dizer que não gosto porque não há pastéis de nata?
As saudades… essas sim… doem… mas estamos perto. Há telefones e Internet! Quando a minha mãe me disse "filha, vais para tão longe" eu respondi "nem tudo o que parece é. O tempo que demoro da Irlanda para Portugal é o mesmo tempo que demorava para chegar a casa quando estudava em Portalegre."

Estou satisfeita com o que tenho aqui! Estou muito feliz ter mudado a minha vida e muito ansiosa com as mudanças que ainda estão para vir.
Portugal? Talvez seja optimista, talvez seja ingénua, mas acredito que as coisas vão melhorar. Talvez seja a nossa geração, a tal que é rasca, que terá o poder de revolucionar os velhos hábitos que minam a cultura portuguesa.
PS: Pensava que éramos uma espécie rara em Dublin, mas parece que há muitos portugueses por cá. Onde andam escondidos? Visitem http://www.lusosinireland.eu/

www.thepimbas.blogspot.com



14.5.08

Ana F., Bióloga, Holanda

Uns chamam-nos Geração Rasca. Outros chamam-nos Geração À Rasca. Eu prefiro ter uma abordagem mais optimista e pensar que somos a Geração Erasmus/Inter Rail.
A nossa Europa não é a mesma que a dos nossos pais. É mais fresca, mais aberta, mais curiosa. Tenho consciência que muita gente em Portugal não teve a possibilidade e a boa fortuna de gozar de nenhum dos programas de estímulo ao intercâmbio acima mencionados por razões económicas, mas também é preciso reconhecer que hoje em dia são muitos mais os jovens que têm a oportunidade de viajar e explorar – indubitavelmente mais que os da geração dos nossos pais...
Eu serei 100% fruto desta nova Geração. Fui uma das afortunadas que teve a possibilidade de gozar da Europa sem Fronteiras no seu pleno! Ainda na Escola Secundária eu e os meus colegas de turma tivemos a oportunidade incrivel de realizar um intercâmbio com uma turma do País de Gales. Suponho que tenha sido então que o bichinho das viagens começou a crescer dentro de mim... As três semanas que passámos ora lá, ora em Portugal, abriram-me os olhos para as pluralidades do Mundo, dos pensamentos e das Culturas. Já durante Universidade (à custa de muitos tostões contados ao longo de cada ano) acumulei na bagagem das minhas viagens um total de três Inter Rails durante os meses de Verão, e finalmente acabei por me aventurar num estágio de 9 meses, ao abrigo do programa Erasmus, em Amsterdão.
A minha experiência em Amsterdão foi reveladora em tantos e tantos aspectos... Cheguei lá fresquinha, curiosa, esperançosa e defrontei-me talvez pela primeira vez na minha vida com o peso de preconceitos e julgamentos a priori – sendo do “Sul” nunca seria tão boa como eles e sempre teria de fazer três vezes mais que os holandeses para me provar de igual valor. Foi como um soco no estômago que, durante os meus primeiros meses, me deixou zonza e desorientada... mas à medida que o tempo passava fui-me encontrando outra vez mais forte e por fim vi um lado muito positivo de toda esta minha experiência – tornei-me uma cidadã do Mundo. Longe da minha familia, dos meus amigos e de tudo o que me era familiar vi-me obrigada a reinventar-me e nas adversidades encontrei-me mais moldável. Cresci imensamente como pessoa. Vivi e conheci pessoas de inúmeros países e culturas e aprendi em 9 meses tudo aquilo que não se aprende nas escolas e nos livros sobre os mundos no Mundo. Hoje olho para trás como um dos períodos mais criativos da minha vida. Mesmo os “socos” que apanhei fortaleceram as minhas convicções, a minha determinação e curiosidade e ensinaram-me a fintar este e outros tipos de perconceitos com graça.
Amsterdão marcou-me assim de forma indelével e fortaleceu irreversivelmente o bichinho das viagens e da aventura. Apesar de ter voltado para Portugal após o meu Erasmus, onde realizei um segundo estágio, sabia que não iria por lá ficar muito tempo... As razões eram muitas. Para começar, sendo cientista as perspectivas e oportuninades em Portugal são mais escassas – não inexistentes, mas certamente mais limitadas. Por outro lado, certos aspectos da sociedade portuguesa faziam-me agora muito mais comichão. A sociedade holandesa é das mais tolerantes e abertas (ainda que seja preconceituosa também), e a minha experiência em Amsterdão já não me permitia fazer orelhas moucas a algumas das injustiças que testemunhamos em Portugal com a mesma facilidade com que fazia antes. Ainda assim, estes eram obstáculos contornáveis e não seria justo da minha parte deixar de admitir que o que realmente me impulsionou e me empurrou para uma vida de emigrante foi a minha insaciável curiosidade pelo Mundo.
Assim, aqui me encontro novamente na Holanda. Estou a realizar o meu doutoramento desde há três anos. À partida não teria escolhido viver novamente aqui. Apesar do saldo global da minha experiência em Amsterdão ter sido positivo, em termos profissionais foi um desastre! Fui desrespeitada, as minhas capacidades profissionais e intelectuais desaproveitadas, fui explorada exercendo trabalho de técnica de laboratório durante 9 meses ao invés de aprender e de me desenvolver como cientista. Como veêm, não há só relatos de abuso em Portugal... Justiça seja feita, foi o meu estágio em Portugal que realmente me deu a formação e me permitiu dar o salto qualitativo que fez de mim “PhD material”. No entanto, tive a oportunidade irrecusável de realizar o meu doutoramento num dos melhores laboratórios europeus e decidi que deveria dar uma segunda oportunidade ao país, porque afinal um caso não são casos. Felizmente ainda não me arrependi.
Confesso que razões do coração também tiveram o seu peso nesta minha decisão... O meu namorado também é português e, tal como eu, encontrou melhores condições e mais estimulos aqui na Holanda. No caso dele as diferenças em relação a Portugal são ainda mais gritantes, uma vez que ele é músico. O investimento na Ciência e na Cultura na Holanda simplesmente não é comparavel! Mas não será justo tentar traçar parelelismos com Portugal, dado que os niveis de riqueza destes dois paises tambem não são comparáveis...
Considero que nos países do Norte da Europa, regra geral, faz-se mais política com uma maior consciência social e, como consequência, há maior qualidade de vida. Talvez lhes seja mais fácil dado que são países mais ricos. De toda a forma, as pessoas levam uma vida melhor, mais saudável, com mais dinheiro, com menos preocupações, com melhor sistema de saúde, com melhores reformas. Não sou eu quem o diz. Basta sair à rua e olhar quem passa. No entanto penso que são sociedades mais individualistas, que pecam por falta de sentido de comunidade e que por vezes lhes falta o sentido de solidariedade como algo mais do que um mero conceito intelectual mais ou menos abstracto. Dá a impressão que por terem tão boas redes sociais, cada indivíduo pode escusar-se de ser mais solidário no seu dia-a-dia. Em suma, não há Sociedades perfeitas. Todas têm falhas e todas têm qualidades.
Considero que viver uma temporada fora do país de origem uma experiência essencial, que nos desafia e nos obriga a sair da nossa comfort zone. No que me diz respeito, a mais valia que estes anos de experiência fora de Portugal me deram foi uma maior compreensão do Mundo e uma melhor formação humana. Hoje conheço e aceito melhor os meus limites, os limites dos outros e os do meio que me rodeia e isso permite-me ser mais tolerante e mais feliz. Penso conseguir ver com objectividade os lados bons e maus das sociedades portuguesa e holandesa e é-me impossível rotular uma de boa e outra de má. Estes adjectivos simplesmente não se aplicam! Tudo dependerá do que cada um valoriza, das suas aspirações, oportunidades, etc. Posso apenas dizer que tendo em conta o que eu procuro na vida e o que eu valorizo neste momento, sinto-me melhor e sei que estou mais próxima de alcancar os meus objectivos estando aqui na Holanda.
Não voltei costas a Portugal, nem Portugal me voltou as costas a mim. Simplesmente precisava de algo diferente. Nunca procurei emprego em Portugal, por isso não posso falar de experiência própria acerca do desemprego e dificuldades que lá se vivem. Mas não é possivel negar que, em comparação com o resto da Europa, a situação é mais dificil para quem decide ficar. A minha familia, como bons portugueses que são na sua veia para o dramatismo e fado, dizem-me “Ai filha, não voltes que não vale a pena...”. De facto não penso voltar. Ainda não estou preparada para voltar, nem sei se alguma vez estarei. Mas também não penso ficar por aqui. Quando a minha jornada acabar, faço malas e parto à descoberta de outras realidades.

10.5.08

Ana Casimiro, Licenciada em Ciências Farmacêuticas, Irlanda

Terminei o meu curso em 1994 em Coimbra e voltei para o Alentejo, donde sou originária. Estive a trabalhar como Directora Técnica duma Farmácia durante 10 anos em Campo Maior. Nunca me senti reconhecida pelo meu trabalho. Pelo contrário, senti sempre uma espécie de repulsa. Eles quase preferiam que não fosse sequer á farmácia. A minha presença parecia perturba-los e eu, pouco a pouco, fui-me afastando. Considero que nesses 10 anos regredi na minha profissão, em vez de progredir. Não tinha poder de decisão sobre coisa nenhuma, e andei 10 anos a pedir a informatização da farmácia, o que nunca aconteceu!
O meu marido trabalhava na TMN, e estava francamente farto do trabalho. As oportunidades de trabalho no Alentejo sao muito poucas e ele sentia-se preso, sem qualquer hipótese de sair dum emprego que alem de não o satisfazer profissionalmente, economicamente também era mau. Em Agosto de 2005 todos os empregados da empresa tiveram aumento menos 3, entre eles o meu marido. Foi a gota de água e ele começou a procurar na internet trabalho em Espanha, pois vivíamos mesmo na fronteira.
No meio desta pesquisas ele abriu as propostas internacionais e começam a surgir empregos para farmacêuticos todos os dias.
Como a minha situação também não era a melhor, disse-lhe para por o meu CV. Nessa mesma semana começaram os telefonemas de empresas espanholas que se encarregam de procurar farmacêuticos para trabalhar no reino Unido e na Irlanda.
Um deles perguntou-me se estaria interessada na Irlanda, que havia bastante falta de farmacêuticos e que pagavam mais 20000 por ano que no Reino Unido. Respondi que não me importava. No fim de Setembro de 2005 fui a uma entrevista a Barcelona com o dono de 3 farmácias numa pequena cidade no oeste da Irlanda e passado uma semana recebo um telefonema a pedir-me que viesse a Castlebar para ver a cidade, e para decidir se queria mesmo vir. Ele estava um pouco preocupado com o facto de eu "arrastar" comigo o meu marido e 2 filhos,de 4 e 2 anos nessa altura.
Vim no dia 5 de Outubro, achei a cidade pequena e colorida e as pessoas simpáticas, acolhedoras e muito amigáveis.
Despedi-me do meu emprego e no dia 8 de Dezembro estava a trabalhar em Castlebar. Depois de 2 semanas de formação, passei ao cargo de Directora Técnica de 1 das 3 farmácias do grupo. Posso garantir que evolui mais em 2 meses aqui que em 10 anos em Portugal. O meu chefe está satisfeito com o trabalho que faco, sou reconhecida pelo meu trabalho, e estão sempre preocupados com o meu bem-estar e o da minha família.
Os meus filhos, que não falavam uma palavra de inglês, estão na escola, são fluentes, tem amigos. O meu marido trabalha em part-time e ganha o dobro do que ganhava em Portugal!
Considero que a mudança para a Irlanda só pecou por tardia! É claro que nem tudo é fácil, fazem-nos falta muitas coisas de Portugal como o sol, o céu azul, a comida. Mas no geral foi uma escolha acertada. Estou feliz aqui, profissionalmente dei um salto enorme e não tenho planos de voltar para Portugal.

28.4.08

João Fiuza, Eng. Informático, Nice, Franca

Após tirar o curso e uma pequena experiência de trabalho, comecei a trabalhar como consultor, num projecto para uma agência de noticias.

Tive la 2 anos, estava a ser mal pago, mas como o projecto e as pessoas eram bastante interessantes decidi permanecer ali ate acabar o projecto.

Fui de ferias de natal e quando volto. BAM! O projecto foi cancelado!

-"Voltem por favor ao vossa empresa mãe" disse um dos directores.

Ora farto disto pensei: "Ano Novo, vida nova!.Vou experimentar uma experiência no estrangeiro. Nao tenho casa para pagar, ninguém depende de mim… a faze-lo, esta é a altura ideal.".

Sempre me senti esta vontade de entrar em contacto com outras culturas. De saber se o "lá for é que é" se mesmo verdade ou não.

Pus o meu CV num site internacional e esperei.

3 meses depois estava em Nice a trabalhar.
Nunca na vida tinha pensado ir para Nice (quando me telefonaram nem sabia aonde era). Mas o desafio e o convite de uma empresa internacional seduziu-me.

E o que vos posso dizer é que todos os preconceito que eu tinha de uma experiência no pais do queijo foram drasticamente alterados:

1- A nível de organização não devemos nada aos Franceses. Mas ao mesmo tempo creio que nos dão mais responsabilidades aqui em Franca.

2- Passado um ano o projecto onde estava foi anulado (o mesmo que tinha acontecido em portugal).

3- Tem mais orgulho em eles mesmos que os portugueses...mas ao mesmo tempo contratam pessoas de todo o lado. Em portugal nunca vi uma empresa contratar pessoas que não soubessem português.

4- Trabalham menos horas que nos e tem mes e meio de Ferias.

5-Queixam-se do mesmo que nós: "Lá na Escandinávia é que é"

Fora do trabalho eis o que verifiquei:

1- O Franceses tomam duche todos os dias

2- Chove menos em Nice que em Lisboa

3- Começo a falar como um emigrante.

Tudo isto para dizer que nem tudo é mau em Portugal como também nem mau no estrangeiro. É apenas diferente...a cada um de depois se adaptar a essas diferenças.

27.4.08

Ana Borges, Ex-toxicodependente, Eng.ª. Química, Itália, Reino Unido

A minha história tem um percurso um pouco atribulado mas não é, afinal, muito diferente de muitas que li neste blog.

Comecei uma licenciatura em gestão de empresas quando tinha 18 anos. Acabadinha de sair do 12º ano, no princípio dos anos 90 a minha família dizia-me que o importante era o dinheiro e a gestão de empresas estava muito na moda na altura. Eu era apenas uma adolescente e fui. Apesar de sempre ter gostado de ciências todos me diziam que era uma licenciatura para o desemprego.

Num curso que detestava, numa crise de identidade e de futuro negro, conheci umas pessoas “menos recomendáveis” e depressa caí no mundo da droga.

Os supostos melhores anos da minha juventude (dos 23 aos 28) desperdicei-os casada com a heroína e a minha vida estava descambada.

Depois de muitas atribulações, parti para a Sardenha, Itália com o intuito de curar a minha toxicodependência. Ao fim de 4 anos na Sardenha (que tem praias espectaculares) mas onde a mentalidade das pessoas é tão fechada e tão pouco tolerante a estrangeiros, vivia num mundo rural numa relação amorosa já condenada há muito tempo atrás.

Curada definitivamente da minha dependência, resolvi virar o rumo à minha vida e voltar a Portugal que pensava, dada a experiência que tive em Itália, ser a terra das oportunidades. Voltei a casa da mãe (que foi muito duro, estava já habituada à minha independência) e arranjei trabalho num armazém de tratamento de documentos da vodafone. Resolvida a refazer a minha vida e ser “normal” decidi voltar a estudar e tirar o curso superior (desta vez mais a meu gosto) de engenharia química. Tirei o curso como trabalhador-estudante, sem nunca chumbar a nenhuma cadeira e com as melhores notas das turmas todas, inclusive as diurnas.

Acabado o curso, com mais de 30 anos, a procura de emprego foi uma frustração.

Os poucos anúncios que existiam para a área exigiam menos de 30 anos ou se tivesse mais deveria possuir uma experiência profissional de 5 anos. Passei um ano, continuando a trabalhar no armazém, a mandar currículos para todo o país, e nada!

Inscrevi-me no programa do Inov-Jovem, onde se faz um estágio de 9 meses remunerado numa empresa que se adeqúe às nossas qualificações como recém-licenciados.

Saí de Lisboa e rumei, cheia de esperança no futuro, para Santa Maria da Feira. Gastei todo o dinheiro que recebi da minha saída do armazém para me instalar no norte. Tive 3 meses de formação lá (dos melhores que já passei até agora), ao fim deste tempo o programa incluía então o nosso tão esperado estágio.

Fui colocada numa empresa em Alcobaça, tive mais uma vez de me mudar e gastar as poucas economias que me sobravam. Nesta empresa, o pouco estágio que fiz, foi desastroso!

A empresa estava à beira da falência, salários em atraso aos trabalhadores, dívidas à segurança social e às finanças e a quase todos os fornecedores. O meu futuro ali era nulo e, além do mais, a actividade da empresa nada tinha a ver com a minha formação. Empresas familiares que vivem à custa de estagiários pagos pelo estado, sem mais nada para oferecer. Não aumentei em nada a minha experiência, não me deram espaço para ter iniciativa e tratavam-me como uma pessoa “fora da família”. Os patrões orgulhavam-se de dizer que eles é que eram “as cabeças pensantes” da empresa (por isso estavam na falência…). Queixei-me ao meu supervisor de estágio da situação ao que ele me respondeu “pois é… mas tem de se adaptar”.

Nunca fui pessoa de me adaptar a situações ridículas como esta mas no entanto encontrava-me agora com 34 anos de idade e as minhas perspectivas eram zero!

A procura no “expressoemprego” não era uma opção.

Tinha os meus sonhos destroçados e não me sobrava alternativa. Dentro de 6 meses estaria no desemprego pois aquela empresa não me iria oferecer nada.

Resolvi antecipar-me e saí do estágio a meio. Por ter saído a meio o estado ainda me exigiu que lhes pagasse 4000 euros por não ter completado o tempo. Com advogados metidos pelo meio consegui escapar a pagar o dinheiro mas não me escapei à humilhação.

Queria e quero desenvolver actividade profissional em Portugal mas tomei a decisão de ir para fora mais uma vez e investir (mais uma vez também) no meu futuro.

Com algumas horas de Internet encontrei a possibilidade de fazer um doutoramento em Inglaterra remunerado (1000 libras por mês). Nem hesitei.

Deixei a casa em Alcobaça, o meu namorado ficou em Lisboa e parti.

Vivo num campus universitário. As condições de investigação aqui, apesar de não serem as ideais, pelo menos existem e continuo a ser uma sonhadora e achar que um dia, com um doutoramento na mão, posso arranjar um emprego normal em Portugal, que reflicta as minhas capacidades e potencialidades.

Não posso dizer se estou arrependida ou não de ter saído de Portugal. Não foi uma opção que tomei, foi apenas a única saída.

Detesto o clima inglês e não me identifico com a mentalidade “fria” inglesa.

Mas ao menos aqui talvez consiga fazer com que alguém me dê uma palmadinha no ombro, me diga “Good Job” e reconheça o meu trabalho e esforço para me manter à tona de água.

6.4.08

Joana Pedroso, Conservadora-Restauradora de Papel. Haarlem, Holanda

Então aqui fica mais uma história de uma imigrante da nova geração.
Acabada de fazer o curso sentia-me super insegura em relação ao que ao fim de cinco anos aprendi. A educação em conservação e restauro em Portugal é bastante mais generalista que no resto da Europa e para quem, como eu, deseja a especialização na área de papel, a educação em Portugal roça o ridículo.
Fiz o estágio de final de curso num museu na Holanda (Haarlem), confirmei o que já suspeitava em relação ao meu curso e apercebi-me das diferenças abismais a nível de profissionalismo e produtividade quando comparando os dois países. Dando um exemplo bem explícito: os conservadores restauradores de papel da área de Amesterdão e Haarlem reúnem-se de 4 em 4 meses para partilhar experiências, dar a conhecer novos materiais e técnicas que descobriram, e também para contar os "erros" e os "desastres" que aconteceram. Em Portugal reina o segredo, é ainda uma profissão de mezinhas e receitas secretas (claro que há excepções! e espero que os meus colegas que ficaram possam pouco a pouco mudar este panorama).
Decidi então tentar ficar, o meu plano era melhorar enquanto profissional para ter mais hipóteses de me empregar em Portugal quando voltasse. Ainda durante o estágio enviei currículos a pedir estágios profissionais (não remunerados) em regime de part time com o plano de depois arranjar outro emprego para suportar os custos. Assim o fiz e arranjei um emprego e o estágio no mesmo atelier, ou seja, trabalho cinco dias por semana e apenas recebo três. Para o único holandês que conheço fora do trabalho a minha situação é ridícula, pois não percebe como me posso submeter a estas condições, trabalhar de graça dois dias por semana. Sim, talvez esteja a ser explorada mas na verdade o que estou a aprender e todas as experiências que até agora o atelier me proporcionou (trabalhamos com os museus mais conceituados da Holanda e não é raro passar um dia a tratar de um Rembrandt ou de um van Gogh) justificam este sacrifício.
Mesmo apenas recebendo 3 dias por semana, recebo mais de qualquer um dos meus colegas que recebem os 5 dias por semana em Portugal. Partilho um apartamento com duas outras expatriadas (uma búlgara e uma alemã), não preciso de contar os tostões quando vou ao supermercado, saio quase todos os fins-de-semana, dou-me a alguns (poucos) luxos, mas não poupo nada no fim do mês.
Após quase um ano e meio fora já não penso em voltar tão cedo. Tenho saudades do meu país, tenho saudades da minha língua, da família e amigos e claro, do clima.
No futuro pretendo sair da Holanda, o clima e a minha vida social pouco estimulante são as causas. Ainda não sei para onde e quando, mas Portugal não aparece nas opções.
É preciso alguma coragem para mudar de país sem conhecer ninguém e sem conhecer a língua (apesar de todos falarem inglês aqui, falar holandês é um passo muito importante para a integração). Ficar por outro lado é mais fácil, a rotina rapidamente tomou conta de mim e saber o que me espera em Portugal torna o retorno pouco aliciante.
Não posso aconselhar ficar ou sair de Portugal porque depende de cada um, do que desejam e do que precisam para se sentirem felizes. No fundo é isso que todos procuramos, a felicidade, em Portugal ou no resto do Mundo.

30.3.08

Alex Tomás, Licenciado em Informática de Gestao (UM).Madrid, Espanha

Porque saí do pais?
Porque quando terminei o meu curso (com estágio incluido), houve uma multinacional que colocou no mercado portugues a oportunidade para trabalhar na Alemanha em SAP durante 2 anos, com salários de 70 contos além de pagar hotel e viagens a Portugal todos os meses. Nós (sim, eramos 10) talvez pela vontade de trabalhar, arriscamos.
No meu caso (apesar de a minha mae ser contra), apenas o justificava da seguinte forma: "Eu vou para lá e vejo como é aquilo. Se nao correr bem, tenho cartao de credito e compro um bilhete de aviao e venho embora".
Leiam apenas esta: encontrei os outros 9 no Aeroporto Sá Carneiro e uma das colegas perguntou-me: "entao estavas desempregado?". Ao que eu respondi: "nao, nao consegui foi arranjar trabalho".
A única coisa que me atrofiava a cabeca era o facto do pais destino ser Alemanha. O meu ingles era muito, muito fraco e nao sabia nem uma palavra de alemao.
A vontade de comecar a trabalhar alem de querer aprender ingles, sobrepôs-se ao receio de emigrar.

A partir desse dia nunca mais parei. Houve colegas que regressaram antes dos 2 anos, houve outros que desistiram e os restantes sairam quase todos da empresa ao fim do contracto. As nossas condicoes económicas melhoraram passado 6 meses, passando dos tais 70 contos para um salário variável que podia atingir valores muito aceitáveis, além de termos "living-allowances" (julgo que o medo da empresa em perder-nos (depois do investimento inicial) levou-os a abrir os cordoes a bolsa. O facto de sermos 10 tb ajudava porque eramos como um mini-lobby).
Nesses 2 anos de contracto, trabalhei 1 ano em Estugarda e 1 ano em Eindhoven (Holanda) com uma pequena passagem pelo Pais de Gales.
Depois disso trabalhei em Portugal durante 1 ano a recibos verdes (Lisboa e Figueira da Foz). Foi uma óptima experiencia e trabalhei com pessoas muito uteis.
No entanto deu já para perceber que a mentalidade portuguesa em questoes de trabalho é muito mesquinha. Enquanto existir isso de "Sr. Eng°" ou "Sr. Dr." em vez de chamar as pessoas pelo nome ou por tu, sendo elas o dono da empresa ou o teu chefe directo, nao acredito que Portugal avance muito. Outra coisa é o facto de o pessoal sem ter contacto directo com clientes ou publico, ter de vestir fato.
Mas a conclusao é óbvia (como eu costumo dizer sobre os Portugueses): "pequeninhos mas orgulhosos".
Depois mudei-me para Espanha - Málaga (espectacular) onde tinha trabalho e boa vida (ainda é a minha cidade favorita para viver fora de Portugal).
Depois voltei a mudar-me desta vez para Barcelona.
A seguir fui novamente para a Alemanha - Munique (deve ser a cidade menos alema da Alemanha). Uma cidade cuja qualidade de vida deve ser das melhores do mundo. Só o tempo nao acompanha mas de resto é espectacular.
Estive por ali pouco mais de 1 ano.
Depois voltei a Espanha - Málaga.
Depois fui mais uma vez para Portugal onde estive em Lisboa mais 9 meses. Gostei bastante ja que a empresa é uma multinacional onde essas etiquetas portuguesas nao sao muito seguidas.
Mais uma vez dei de frosques, desta vez rumo a Belgica - Bruxelas.
Depois mudei-me para Italia - Milao (Italia como pais é fantástico - Milao é uma cidade a evitar para aqueles que desejam fazer turismo - cidade escura e feia. Apenas tem a Duomo, o La Scala (comprem bilhetes com muita antecedência porque apesar de custarem mais de 100 Eur estao quase sempre esgotados) e pouco mais tem que ver).
Depois de Milao, fui mais uma vez para a Holanda - Haia (capital mundial da paz e da justica). Foi por pouco tempo mas Holanda é dos paises que mais gosto.
Actualmente estou em Espanha - Madrid e já estou aqui há mais de ano e meio. Gosto bastante de estar aqui mas está próxima a data de validade.
Falo fluentemente Inglês, Espanhol, Italiano e Frances. Alemao entendo muitas coisas mas falar ainda nao me foi possivel.
Como todos, gostaria agora de voltar a Portugal e ficar por lá... mas cada vez que lá vou nao vejo nada para mim. A mentalidade continua a mesma, os anos passam e as pessoas cada vez sao menos (pelo menos nas cidades onde vou).
Sinceramente estou num momento de indecisao na minha vida: nao sei se quero continuar com esta vida de nomada e se quero continuar a trabalhar naquilo para que estudei. Comeco a estar um pouco farto e dai pensar que poderia dar o meu contributo ao pais... mas a pergunta mantem-se: "alguem me pediu ajuda?"
Quem quiser pode escrever-me para o email: alex_tomas_bi@hotmail.com

28.3.08

Rita Burnay, Arquitecta. Madrid

Como muitas pessoas têm escrito os motivos para sair de Portugal nem sempre são os mais dignificantes, muitas vezes, somos atirados para uma situação em que a única saída é sair... Sair de Portugal, abandonar as pessoas e os lugares de que gostamos, com um sorriso na cara e a fingir que o que nos move são a vontade de experimentar culturas e lugares novos.
É preciso ter coragem para embarcar nesta aventura e se deixamos o nosso país um pouco tristes e contrariados acabamos, muitas vezes, por voltar contentes e transformados.
Os portugueses têm no sangue a sua raça de descobridores e por isso temos esta tendência de ir procurar o que queremos.
Eu encontrei tudo o que queria em Madrid. Sou arquitecta e como tantos outros arquitectos descobri que não havia trabalho para mim em Portugal. O meu namorado, na altura, também arquitecto já se tinha feito à estrada e isso deu-me a coragem que precisava para reagir. Casámos e começámos uma nova vida em Madrid onde estamos os dois cheios de trabalho e onde temos uma qualidade de vida invejável.
A melhor sensação é descobrir que podemos fazer da nossa vida aquilo que queremos.
Não temos que viver num sítio porque foi aí que nascemos, a nossa nacionalidade ninguém nos tira e por isso podemos levá-la para onde queremos. Eu sou Portuguesa mas o meu lugar é onde eu quiser estar.
Agora estou muito mais rica tenho duas cidades, aquela onde nasci e aquela que escolhi!
Não sei quando vou voltar mas certamente um dia...

6.3.08

João Oliveira, Gestor. Da Holanda para Portugal

A minha história é inversa de muitas que li aqui. Acho que é importante para quem parte de Portugal, para economias e sociedades mais saudáveis, deixar para trás os vícios de negativismo e falta de auto estima que adoecem este cantinho. Acredito que devemos partir à procura das oportunidades seja em Portugal, em Londres ou na Dinamarca: há um Mundo inteiro onde encontrar a melhor solução para cada um de nós.

Isso não excluí a Lusitânia.

Eu agora vivo e trabalho em Portugal, mas honestamente, apenas por acaso. Safei-me por aqui, como já me tinha safado antes lá por fora, provavelmente porque regressei com tudo o que por lá aprendi.

Hoje sou gestor numa grande empresa e vivo melhor do que quando vivia na Holanda. Já conheci competentes e patetas e lambebotas de todas as nacionalidades, e cá não há nem mais nem menos do que na Holanda.

Em minha Opinião, o que é preciso é pensar Global sempre que equacionamos um novo passo na Vida. Este Blog está cheio de exemplos de quem o fez com sucesso. Isso não deve implicar ressentimentos por Portugal não ser mais fácil: Também há quem se organizou por cá sem nunca ter emigrado e é um bocadinho limitado acreditar que o sucesso dos outros se deve sempre a cunhas e cunhados.

Conheço quem tenha regressado com histórias bem mais tristes e menos sucedidas que as que aqui são contadas. Injustiças e atraso mental também acontecem noutras realidades.

As histórias neste blog revelam gente com muita fibra, provavelmente mais fibra que muitos patetas que vejo por Lisboa e outros que vocês conhecem por aí. Ao ler estas histórias percebo o valor de quem as escreve, mas encaro-os como pessoas que procuraram as oportunidades e não propriamente como refugiados empurrados para fora daqui. São heróis por mérito próprio, e não vítimas de um país atroz.

Não será um vestígio de salazarismo ter que justificar a ambição de sermos mais, o nosso direito de nos realizarmos, de querermos crescer apontando o dedo ao país ? Nenhum país pode oferecer todas as oportunidades a todos. É normal que as pessoas procurem empregos noutros países. Vai ser cada vez mais comum. Já ninguém mora no mesmo sítio a vida toda. So What ? Há fado na Internet todos os dias.

5.3.08

A ler, a reportagem da Visão.
Obrigada à Leonor ;)

2.3.08

Rubina Vieira, Mestre em Gestão de Turismo, Londres


Antes de mais, gostaria de agradecer à mentora deste blogue, porque é realmente uma ideia muito boa, para além de reconfortante, ler as histórias dos outros.

Confesso que tinha algumas reticências em partilhar a minha história, mas porque me senti representada, e compreendida, no meio de todos estes depoimentos, aqui fica um relato simples do meu “salto”, para tentarmos perceber porque razão os jovens portugueses abandonam o país.

Acabei uma licenciatura no ISCSP, em Relações Internacionais, e trabalhei na área do jornalismo durante três anos (2000-2003). Foi uma experiência fantástica, numa redacção jovem, onde tive a oportunidade de conhecer imensa gente e desenvolver-me como pessoa.

Contudo, e porque estava confinada, na altura, às politiquices da pérola do atlântico, sou madeirense, cedo me apercebi que nessa área pouco mais me restava do que relatar, 300 vezes, as queixinhas da oposição, a pujança dos líderes e uma ou outra reportagem interessante, é verdade.

Desde que me conheço, vivo sonhando com a próxima viagem, conhecer pessoas do mundo inteiro, aprender isto e aquilo e um mestrado no estrangeiro era um sonho de adolescente.

Calhou que o discurso da tanga veio no momento em que reflectia sobre o meu futuro profissional. Com o que ganhava, teria que me aguentar na casita dos papás, sem grandes desafogos, e sem perspectivas que as coisas fossem melhorar a médio prazo.

Farta do país pessimista, foi duro constatar que, nessa altura, Portugal começava a afundar. Tinha dezenas de amigos, licenciados, em condições precárias ou a ficar desempregados. A minha geração, apelidada de rasca por um energúmeno, estava mais à rasca do que nunca. Foi duro ver tanta gente talentosa sem rumo. Pensei, … “Portugal não presta”! Infelizmente, ou felizmente, quatro anos passados não mudei muito de opinião.

Não fui forçada a sair do país, nem estava numa situação financeira aflitiva. Foi algo que sempre quis, só não sabia bem para onde queria ir.

Ainda equacionei fazer mestrado na Argentina ou em São Paulo. Mas após umas férias em Londres apaixonei-me pela cidade, e para aqui me mudei, sem emprego e sem conhecer ninguém, em 2004.

Tinha e tenho bons contactos em Portugal. Mas sempre acreditei que se deve subir por mérito, em vez de entrar pela porta do cavalo.

Nessa altura, não sabia se havia de optar por um mestrado na área do jornalismo, ou em turismo, uma paixão recente. Estive quase um ano a trabalhar e a pensar sobre qual a opção a tomar, e acabei por fazer mestrado em gestão de Turismo, na Universidade de Westminster.

Mantenho um vínculo com um órgão de comunicação social e estou a dar aulas, a futuros licenciados em turismo, numa universidade no centro de Londres.

Não foi um percurso fácil, não é fácil vingar num país estrangeiro. Só quatro anos passados, estou a colher os frutos de muita dedicação, e trabalho, de algumas lágrimas e espinhos.

Mas foi num país estrangeiro que me senti, e sinto, valorizada, que gosto do que faço e sigo os meus sonhos. Portugal asfixia quem tem ambição, e valor, sobretudo os que não se associam a qualquer partido ou facção.

Olho com tristeza para o meu país, para a falta de rumo e atentados à democracia e liberdade de expressão, e sinto-me afortunada por, nesta fase, trazer de Portugal só o que é bom: o tempo, o carinho e mimo da família e dos amigos, a comidinha e o descanso que usufruo quando lá vou.

Não sei se por aqui vou ficar, nem se regressarei a Portugal. Não gosto de fazer planos a longo prazo. Logo vejo para que lado acordo amanhã. O que interessa é termos coragem de seguir os nossos sonhos, mesmo que o percurso seja difícil, e sermos fiéis a nós próprios.

Tenho conhecido pessoas interessantíssimas, viajado por países diferentes, aprendo todos os dias e quero continuar a fazê-lo sem prazos e longos planos.


www.penseiquesabia.blogspot.com

16.2.08

Branca, Arquitecta. Londres, Reuno Unido

Como muitos dos sites que visito, descobri este por acaso, num link de algum blog por onde passei os olhos.

Gosto de viajar, gosto esse que foi transmitido pelos meus pais, junto com a ideia de que se aprende muito a viajar. Concordo a 100%. Entre ferias em cursos de línguas, acampamentos e viagens de família fui conhecendo outros sítios, outras línguas e outras culturas.

Em Julho de 2002 fui para a Noruega em Erasmus por 11 meses, dos quais 6 semanas foram passadas na China. Ai surgiu a ideia de ir para a India fazer a prova final, a Goa para ser mais especifica - afinal parte da família e' de la' e a India sempre me atraiu. Seis meses depois de chegar da Escandinávia partia por três meses para o "terceiro mundo".

As coisas não correram como eu as planeara (o que me acontece frequentemente) e a razão perdeu: voltei a Goa por cinco meses durante o estagio (sem obrigação de remuneração) exigido pela OA. Regressei a Portugal e fiz os restantes sete meses num atelier em Coimbra. Morava com os meus pais mas vivia novamente entre dois fuso-horários, entre duas línguas, entre dois países a 8000km de distancia.

O fim do estagio coincidiu, entre muitas coisas, com a rescisão de emprego de quem me fez voltar a Goa. Era a única maneira de nos voltarmos a ver. Ele veio por 3 meses a Portugal e eu ia aproveitando o desemprego para estar com ele mas ia mandando currículos para onde visse anúncios.

Dois meses depois veio a noticia de que ele tinha sido aceite para mestrado em Londres. Eu ainda estava desempregada. Os ateliers aceitavam essencialmente recém licenciados, que tinham de fazer o estagio (o tal para o qual não era obrigatória remuneração) e os sítios para onde mandava candidaturas de resposta a anúncios nem se dignavam a dizer que as vagas tinham sido ocupadas. Falei com uma arquitecta que estava em Londres, numa de sondar a situação e pareceu-me haver mais oferta que procura. Arrisquei.

Dia 22 de Junho de 2006 comecei a mandar emails, maioritariamente de autoproposta, para ateliers em Londres. Imprimi 20 portfolios, fiz a mala e uma semana depois estava em Londres, com uma meta imposta por mim de um mês para arranjar emprego ou voltar para Portugal. Uns dias depois, para alem de varios e-mails de rejeição mas com votos de boa sorte na procura, tinha duas entrevistas. 4 de Julho de 2006 fui 'as duas entrevistas, por coincidência marcadas para o mesmo dia, em lados opostos da cidade. A primeira não correu bem, não era o que eles procuravam. A segunda começou pior. Um escocês! Tive de lhe pedir para repetir as frases uma data de vezes, mas quando sai de la' uma hora depois fiquei com a sensação de que ele tinha gostado. Dois dias depois recebi um telefonema a perguntar quando podia começar. 10 de Julho de 2006 foi o meu primeiro dia de trabalho em Londres. A semana que se seguiu foi o caos: abrir conta bancaria, alugar casa, tratar do NIN (tipo segurança social), conhecer as estações de metro e alternativas para não chegar tarde ao emprego nem ao jantar na residência e adaptar-me ao modus vivendi. Mas claro, valeu a pena.

Passados 20 meses continuo na mesma empresa, apesar de muita gente aqui mudar frequentemente de emprego. Estou com contrato permanente, trabalho cinco dias por semana das 9h00 'as 17h30 com uma hora para almoço. Se tiver de ficar mais tempo recebo horas extraordinárias.

No Natal e no Verão temos uma actividade de escritório: uma viagem de fim de semana ou um pique-nique no parque mais próximo, a ideia e' que a malta conviva e se divirta. O escritório promove regularmente acções de formação em diversas áreas ligadas 'a arquitectura para o pessoal se manter actualizado. Há imensas pessoas de montes de sítios (nos somos 15 com 13 nacionalidades diferentes), o que nos leva a conhecer um pouco de cada cultura e concluir que não somos os único "expat". E isto não e' so' onde eu trabalho, há' muitos escritórios assim ('a parte das horas extraordinárias talvez). Para ajudar, 'a media de uma pessoa (conhecida) por mes chega gente nova 'a procura de emprego. Ou sao de Coimbra, ou estudaram em Coimbra, ou amigos de amigos. Estou farta de conhecer portugueses!

Portugal?

Já me disseram varias vezes que o meu conceito de distancia e' diferente. Talvez. Não acho que esteja assim tão longe de casa: são seis horas de porta a porta se os pilotos não se atrasarem. E há telefones, e-mails, blogues, cartas e postais. Quando vou a casa levo a mala vazia e trago-a carregada com azeite, chouriços, bacalhau, queijo do Rabaçal, licor beirão, vinho tinto, vinho do Porto, bolo de mel, Bohemias e outras iguarias dependendo da época. Acabo por falar mais com os amigos quando estou fora, nem que seja pela curiosidade: minha de saber as novidades da terra, e deles por conhecerem os sítios por onde ando.

Quando volto a casa apercebo-me que as coisas não mudaram. Bem ou mal, continua tudo na mesma.

Vou ficando por aqui. Certamente voltarei a Portugal sem ser de ferias, mas nem vale a pena fazer planos para isso, porque nada me acontece como planeado. Londres não e' de todo o paraíso e tem um clima horroroso mas, tirando isso, agrada-me. Como provavelmente me agradaria qualquer outro sitio que escolhesse para viver, porque se não me agradasse acho que não ficava la! Tendo a ser uma pessoa positiva e aproveito o melhor do que tenho em vez de idealizar o impossível. Londres tem tanto para ver, fazer e viver que e' quase impossível uma pessoa se fartar.

Qualidade de vida?

Se estivesse em Portugal, ou vivia com os meus pais e manteria a qualidade de vida que sempre tive ou teria de apertar bastante o cinto para me adaptar ao modelo "600 euros/mes". Aqui tenho uma qualidade de vida que não e' como a que teria em casa dos meus pais mas e' bem melhor que a dos 600 euros.

Aqui não tenho carro mas o sistema de transportes públicos e' bastante bom e os autocarros funcionam 24 horas por dia (apesar evitar os "nightbuses"). Moro numa casa com mais duas pessoas mas em Portugal teria provavelmente de fazer o mesmo, certamente sem piscina, sauna, jacuzi e ginásio. Vou menos vezes comer fora mas vou mais ao cinema e a concertos. E no fim do mês ainda passo uma parte do salário para a conta poupança.


www.spaces.msn.com/brancapegado

13.2.08

Pedro Martinho, Licenciado em Arquitectura. Madrid, Espanha


Posso hoje dizer com algum orgulho e com alguma pena, ao mesmo tempo, que já vivi em 3 cidades, trabalhei em 5 ateliers e estou agora, mais que nunca, com a sensação de que todas as experiências (tanto em Portugal como fora) valeram a pena para chegar onde hoje estou.

Saí do País com 23 anos para realizar um estágio obrigatório pela Universidade. Fui tentar a minha sorte para Barcelona onde residi durante um ano, trabalhando num atelier de cerca de 40 pessoas. A experiência foi extraordinária mas tinha data de validade, pois era obrigado a voltar à Universidade para terminar os estudos.

Assim que acabei, deixei-me ficar num atelier onde já trabalhava em Lisboa e por aí fiquei quase dois anos, altura em que decidi arriscar uma vez mais, sabendo o que me esperava em Portugal na minha profissão. Queria casar-me, ter casa própria e a ganhar 250 (!) euros por mês, pago a recibos verdes era uma ilusão pensar que alguma vez ganharia o suficiente para ter uma vida própria e independente da ajuda, mais que necessária, dos meus pais. Era dinheiro, tempo para mim e para os meus trabalhos e uma certa distinção no trabalho que eu procurava e que sabia não conseguir no local onde estava: um atelier de renome, com projectos nacionais e internacionais, nomes em revistas e prémios, enfim, um sem número de razoes que não se entendia esta exploração que efectuavam, e que ainda a fazem, a cerca de 10 recém-licenciados que davam 10 horas por dia de trabalho, incluindo algumas noites e fins-de-semana, sem qualquer benefício monetário ou prático...um simples "bom trabalho" parecia não existir, e as pessoas esmorecem...

Saí em Fevereiro de 2007 rumo a Madrid. Fui a entrevistas e fiz contactos. Percorri a cidade em procura de trabalho em ateliers de arquitectura e assim foi: um dia fui chamado e nem viram o portfolio, apenas me disseram o que ia fazer, qual a minha função, quais os objectivos e expectativas que me ofereciam e que eu sonhava e escreveram o salário mensal num papel. Perguntaram-me se estava interessado e eu respondi que sim, claro!

Hoje sou casado, temos dois rendimentos razoáveis, que nos permite uma vida sem olhar todos os dias para a conta, uma casa recheada de coisas nossas e uma vida cheia de portas por abrir e perspectivas por cumprir. Hoje sou mais feliz, apesar de me custar pensar no que deixei para trás...a família, os amigos, a cidade, os costumes. Ao fim e ao cabo resta-nos fazer amigos e hábitos novos e a família está a 50 minutos de avião...

O mais normal será voltar dentro de uns anos, mas será que terá mudado alguma coisa? Será que vale a pena o esforço?

3.2.08

ELD, Assistant Polymer and Paint Scientist, Londres

Em Março de 2005 terminei o curso de Licenciatura em Química no Instituto Superior Técnico com média de 15 valores. Durante o curso fiz investigação com vários professores em diferentes áreas da química. Não só foram boas oportunidades para aprender, como também para fazer currículo e conseguir uma ou outra publicação. O último ano do curso consistia num estágio, este pode ser proposto pelo aluno ou então pode esperar que o IST lhe encontre uma solução. Pelo que vi de anos anteriores, quem esperava, desesperava e raramente tinha estágios interessantes ou que começassem na altura devida. Como tal, pus mãos à obra e decidi que eu trataria de arranjar o estágio com o qual sonhava. Queria ir para uma empresa, no estrangeiro mas não em Espanha, de preferência multinacional e trabalhar com polímeros. Isto por várias razões: a experiência de investigação em Universidade já tinha, em empresa não; além disso a área dos polímeros parecia-me algo que me daria muitas opções para o futuro visto o seu grande leque de aplicações. Contactei um professor que me possibilitou o estágio "perfeito": Solvay, França, síntese de latexes.
O meu estágio, em que trabalhei em 3 projectos diferentes, durou cerca de 10 meses. Na sua maioria as pessoas eram muito simpáticas e gostei muito do trabalho. Tive condições fantásticas: recebia salário, a casa era da empresa e até me emprestaram uma bicicleta. Enfim, partir foi difícil mas não havia hipótese de ficar.
Regressei a Portugal após o estágio, apresentei o respectivo relatório e fiz o exame da cadeira que faltava. E assim terminei o curso. Assim que cheguei a Portugal iniciei a caça ao emprego, cheguei a ir a uma entrevista ainda antes de terminar a Licenciatura. De facto, foi uma busca intensiva que deu frutos ao fim de dois meses. Dado o panorama geral, não era esquisita e por isso, se a oferta tivesse Química lá escrito, eu enviava. Fui a várias entrevistas e processos de selecção. A primeira a oferecer emprego foi uma empresa de Importação e Exportação, eu aceitei.
Apesar de acabadinha de sair da licenciatura fui Chefe de Divisão desta empresa durante cerca de 2 anos e meio. Era uma função técnico-comercial, mais comercial do que técnica. Com o passar do tempo as viagens constantes, as horas extra não remuneradas e um chefe incapaz de tecer um elogio mas sempre pronto para "deitar abaixo" cansaram-me.
As saudades da investigação e do verdadeiro contacto com a química foram crescendo e comecei à procura de emprego. Desde sempre que não quis viver à custa de BICs (Bolsa de investigação científica) que não só são de valores baixos como também instáveis: uma vez acabada a bolsa de 1 ano, nada diz que se consiga outra para o ano seguinte. Também estava decidida a não partir para doutoramento pois dada a vastidão da química não tinha a certeza se queria trabalhar 5 anos em algo muito específico e, além disso, com a minha média arriscava-me a não conseguir bolsa. Obviamente a situação do país não tinha melhorado desde que tinha acabado o curso e por isso comecei à procura de emprego no estrangeiro. Aqui era óbvia a diferença pois em Portugal nem apareciam ofertas de emprego para Laboratórios, para investigação; contudo, especialmente para o Reino Unido, estas abundavam. Aqui a procura foi muito mais longa, mas aqui era bastante mais selectiva quanto às ofertas a que respondia.
Eventualmente acabei por ser chamada para entrevista para uma importante companhia fabricante de tintas no Reino Unido, na zona de Londres, que no dia seguinte informou-me que eu tinha sido aceite. Estou cá a trabalhar desde início de Novembro e estou a adorar. O trabalho é muito interessante, as pessoas são muito simpáticas e tenho a noção que ouvem as minhas opiniões! Já fui elogiada por mais que um dos chefes, não só pelo trabalho que aqui desenvolvi mas também pelo meu currículo (até porque a maioria das pessoas que ali chegam nunca sintetizaram um latex). Sinto que aqui, investem em mim e preocupam-se comigo como indivíduo; são dados cursos de formação e já me foi dito que irei a outro país ter um curso de uma semana acerca do tema em que trabalho.
Recentemente a empresa foi comprada e desde Janeiro que passei a pertencer a uma das maiores indústrias químicas a nível mundial. O salário não é muito elevado quando comparado com vê por cá - contudo é consideravelmente superior ao que recebia em Portugal - mas dá perfeitamente para viver, comprar uma coisitas que goste e ir a Londres de vez em quando. Mas mais que o dinheiro, é a felicidade e realização pessoal que este emprego me trouxe.
Voltar a Portugal? Talvez... para gozar a reforma.

http://minhavidadava1filme.blogspot.com

20.1.08

Ana Quaresma, Irlanda
Bacharel em Historia, terminado em 1978.
Jornalista durante perto de 25 anos.

Não sou propriamente uma jovem mas há também muitas pessoas de “meia idade” com curso superiores em Portugal que se encontram arrumadas em “arcas”, como os trapos velhos que já não se usam, e por isso resolvi contar a minha experiência.

Desde muito nova que senti o apelo pelas viagens, pelo contacto com novas e diferentes realidades ou simplesmente o trocar de ideias com cidadãos do mundo. Opostamente e por razões familiares vi-me agarrada a um emprego que não podia de modo nenhum abandonar. Duas crianças para sustentar- uma mãe sozinha que, como tantas, se viu enredada em contas e contas para pagar e sem qualquer apoio oficial. E o meu emprego até me dava prazer – primeiro num jornal e depois numa televisão. Já não gostava era das horas imensas que trabalhava por dia, dos meus colegas que só iam assinar o ponto e ganhavam o dobro de mim, etc, etc O meu esforço e o meu profissionalismo até foram recompensados ( após vários anos de trabalho escravo) e fui promovida a chefe de serviço, lugar que ocupei cerca de 5 anos e que detestei. Mas ganhava muito dinheiro – pelos padrões portugeses- embora quase metade fossem para impostos.

Entretanto atingi uma idade em que comecei a ser encarada como “dinaussauro” e , após várias crises na empresa onde trabalhava ( de natureza política, claro!), que provocaram uma revolução em toda a estrutura, com o consequente emergir dos cunhas e cunhados e afins decidi aceitar os incentivos para a rescisão amigável – ou seja, o ser corrida do local onde eu tinha vestido a camisola, onde eu tinha empenhado a minha alma. “Meti os papéis”! Poucos dias depois fui telefonicamente informada para ir assinar os papéis e receber o cheque!. Fugi de lá e fui para a praia- onde chovia pois estavamos em Dezembro- passear na rebentação das ondas e chorar. O troar do mar abafavam os meus soluços e a chuva na cara mascaravam as minhas lágrimas! Que parva! Que estava eu à espera?

Decidi e bem encerrar esse capítulo.

Entretanto, o meu marido, bastante mais novo que eu e profissional de IT, farto também de