20.1.08

Ana Quaresma, Irlanda
Bacharel em Historia, terminado em 1978.
Jornalista durante perto de 25 anos.

Não sou propriamente uma jovem mas há também muitas pessoas de “meia idade” com curso superiores em Portugal que se encontram arrumadas em “arcas”, como os trapos velhos que já não se usam, e por isso resolvi contar a minha experiência.

Desde muito nova que senti o apelo pelas viagens, pelo contacto com novas e diferentes realidades ou simplesmente o trocar de ideias com cidadãos do mundo. Opostamente e por razões familiares vi-me agarrada a um emprego que não podia de modo nenhum abandonar. Duas crianças para sustentar- uma mãe sozinha que, como tantas, se viu enredada em contas e contas para pagar e sem qualquer apoio oficial. E o meu emprego até me dava prazer – primeiro num jornal e depois numa televisão. Já não gostava era das horas imensas que trabalhava por dia, dos meus colegas que só iam assinar o ponto e ganhavam o dobro de mim, etc, etc O meu esforço e o meu profissionalismo até foram recompensados ( após vários anos de trabalho escravo) e fui promovida a chefe de serviço, lugar que ocupei cerca de 5 anos e que detestei. Mas ganhava muito dinheiro – pelos padrões portugeses- embora quase metade fossem para impostos.

Entretanto atingi uma idade em que comecei a ser encarada como “dinaussauro” e , após várias crises na empresa onde trabalhava ( de natureza política, claro!), que provocaram uma revolução em toda a estrutura, com o consequente emergir dos cunhas e cunhados e afins decidi aceitar os incentivos para a rescisão amigável – ou seja, o ser corrida do local onde eu tinha vestido a camisola, onde eu tinha empenhado a minha alma. “Meti os papéis”! Poucos dias depois fui telefonicamente informada para ir assinar os papéis e receber o cheque!. Fugi de lá e fui para a praia- onde chovia pois estavamos em Dezembro- passear na rebentação das ondas e chorar. O troar do mar abafavam os meus soluços e a chuva na cara mascaravam as minhas lágrimas! Que parva! Que estava eu à espera?

Decidi e bem encerrar esse capítulo.

Entretanto, o meu marido, bastante mais novo que eu e profissional de IT, farto também de pertencer à geração dos mil euros e de trabalhar de sol a sol, candidata-se a um emprego na Irlanda. Um mês depois veio a uma entrevista e dois meses depois estavamos instalados em Galway!

O meu inglês falado era francamente mau, pois nunca tinha tido a oportunidade de o praticar. Mas isso nunca me impediu de falar a torto e a direito e após quase dois anos é francamente aceitável.

Em Setembro do ano passado, após o meu filho mais novo ( que veio para cá com 4 anos) estar integrado na escola e socialmente – fala inglês perfeitamente e tem montes de amigos e amigas irlandeses e de vários países do mundo, decidi procurar trabalho. Com muita facilidade consegui colocação num infantário. Fui contratada para cozinheira e ao fim de duas semanas estava a trabalhar como professora e responsável por uma sala! Tenho recebido mais elogios e incentivos nestes últimos quase cinco meses que numa vida de trabalho em Portugal!

Vivemos muito confortavelmente em termos materiais mas isso não é o mais importante. Sentimos que pertencemos a uma sociedade que nos recebeu de braços abertos, nos acarinha, incentiva e que não tem preconceitos em relação à idade de trabalho- tenho 50 anos- ou a deficiências fisicas – o meu marido é deficiente motor e aqui nunca foi olhado como um ser diferente.

Claro que a Irlanda também tem defeitos e concerteza que são vários. Mas uma coisa não tem: grosseria, chico-espertos, cunhas e “cunhados”e endeusamento dos que fogem aos impostos.

Para mim é suficiente.

Ana

17 comments:

Lyra said...

Queria deixar aqui os meus sinceros parabéns pela sua coragem!

Eu vou fazer 40 anos e já entrei no corredor dos "dinossauros". Também o meu marido trabalha em Tecnologias de Informação e trabalha mais até do que merecem que ele trabalhe, também porque temos um filho de 4 anos para sustentar. É assim a vida em Portugal. Entretanto a nossa vida tornou-se numa rotina infindável e um poço de dívidas e adorávamos sair daqui...e ter uma vida mais...digna...

Gostaria de saber se me poderia dar um conselho àcerca de como arrnjar emprego na Irlanda (país que sempre nos fascinou) tendo em conta que ambos falamos bem inglês e somos bastante versáteis...

Será que poderia responder a este apelo desesperado?

Obrigada pela sua atenção e tudo de bom para si e para os seus!!!

P.J. said...

Oh...Galway... a cidade mais bonita da Irlanda...pelo q dizem...

Ja' pensei em trocar Dublin por Galway, apesar do tempo mais chuvoso... Mas para a minha namorada devia ser mais complicada arranjar trabalho ai'.... Portanto vou ficando por aqui pela "capital"...

@LYRA: Se o teu marido trabalha em IT aqui nao falta trabalho, bem pelo contrario...ha' e' muita falta de pessoal... Se ele quizer que mande o CV dele para p_joel@clix.pt que eu faco-o chegar 'as pessoas certas (depende das areas de experiencia dele)... Se for SW developer esta' em grande...

Cheers mates!

Ana said...

Lyra:

Agradeco-lhe o elogio, mas mais do que coragem acho que é necessário determinação. Como é evidente, há sempre dias bons e dias maus... e nos dias “menos agradáveis” há sempre a tendência (bem humana) para se querer regressar ao que tão bem se conhece...quase como o desejo de regresso ao “ventre materno”. Mas, a “receita” é perseverar e acreditar que, passado algum tempo ( Muito? Algum? ) também a “terra de acolhimento” passará a ter o mesmo fascínio do “regresso a casa”. Isso aconteceu comigo no Verão passado. Estando a atravessar uma fase menos boa – ainda não trabalhava e estava a sentir-me muito “fechada no meu mundo”- fui passar duas semanas a Portugal. Passada a excitação dos dois primeiros dias, só queria voltar à “minha casa”, de volta à Irlanda!
Em relação ao seu pedido de contactos para arranjar emprego acho que deve aproveitar a oferta do P. J.
Mas vá dando uma olhada no site de ofertas de emprego http://www.irishjobs.ie e contactem uma das melhores empresas de recrutamento da Irlanda ( aqui funcionam e bem, não tenham preconceitos dada a nossa experiência em Portugal) http://www.cpl.ie . Dei uma espreitadela há minutos e só para IT há mais de 200 páginas de oferta de emprego!
Quanto a si e como não me diz qual a sua profissão, só lhe posso dizer é que se fala bem inglês, com facilidade vai arranjar qualquer coisa. E outra das grandes vantagens aqui é que há “montanhas” de empregos em part-time, o que para uma mâe com um filho de 4 anos é uma grande mais- valia. Aliás, as mães irlandesas que eu conheço com filhos pequenos, ou não trabalham ou fazem-no em “part-time”, pois sabem que mais tarde com facilidade retornam ao full-time. Eu fui contratada em part-time ( das 9h às 15h) e quando passado duas semanas me propuseram a responsabilidade de uma sala abordaram a questão de passar a trabalhar em full-time. Recusei o que foi encarado com a máxima das naturalidades! Afinal tenho um filho com 6 anos! Outra das vantagens aqui é que não se sente qualquer menosprezo pelo tipo de trabalho que se faz- trabalho é trabalho e o que interessa é ter qualidade de vida. Talvez por isso, na Irlanda, não há drs e engenheiros! Todos se tratam pelo nome próprio! Ah, estou a mentir, drs são os médicos!
Em relação ao seu filho posso-lhe dizer que está na idade ideal para mudar e as escolas aqui são mesmo muito boas. As crianças começam a escola primária dos 4 para os 5 anos e os estrangeiros têm aulas de apoio de inglês durante dois anos.
Felicidades e dê notícias!
Ana
P.J.
Os irlandeses dizem que quem vem a Galway já daqui não sai! Conheço alguns irlandeses que realmente assim fizeram- alguns de Dublin e um casal de Belfast. Mas não só. Posso dar o exemplo de uma americana e de uma francesa que vieram de visita e estão cá há mais de 10 anos!
Será talvez essa a razão pela qual arranjar emprego em Galway não é assim muito fácil, a não ser claro que se tenha uma profissão de topo- caso IT. Conheço mal Dublin- passei lá dois dias- mas dizem que Galway proporciona uma qualidade de vida que dificilmente se pode igualar. Posso falar da vida cultural e nocturna da cidade que é realmente fabulosa e da diversidade de culturas que aqui coabitam- 10% da população é estrangeira!. Há dias a falar com o barbeiro que estava a cortar o cabelo ao meu filho, ele referiu que “Galway é a cidade das tribos”, secularmente reconhecida por bem acolher e integrar todos os estrangeiros.
Portanto e se um dia pensar em constituir família – é uma cidade fabulosa para se criar uma criança!-pense em mudar para cá ou pelo menos venha cá e veja se o ditado é verdadeiro!
Felicidades e dê notícias!
Ana

anamendesquaresma@gmail.com

Restelo said...

Como te compreendo! Estou há pouco tempo no UK e ainda hoje recebi um grande elogio do Project Manager. Isto depois de ter recebido um elogio do meu Manager na semana passada. Uma grande diferença quando comparo com o anterior chefe português para quem eu trabalhava muitas horas extra não remuneradas e que ainda me chamava "lenta de raciocínio". Pois agora estou numa das maiores indústrias químicas a trabalhar em R&D a ganhar mais e a trabalhar menos (a nível de número de horas). Estou a adorar. Eu pergunto: quem é o lento em raciocínio agora?

Liliana said...

Blog a visitar! Recomendado e adicionado!

Luna Tic said...

Oh, finalmente alguém da minha área (jornalismo). O meu objectivo é mesmo trabalhar fora, por isso já estava a desesperar por não conhecer nenhum testemunho de alguém que fosse bem sucedido no estrangeiro nesta área...

Felicidades
Vanessa Sousa

Anonymous said...

Ana,
Obrigado pelo seu testemunho inspirador, não por nos recordar as tristezas que já conhecemos de Portugal, mas por nos mostrar que há países civilizados o suficiente que entendem que "mais velho, equivale a mais maturidade e mais sabedoria - há que aproveitar e dar o devido valor".

Se estes relatos, por um lado, nos entristecem porque percebemos que, realmente, Portugal tem uma mente muito pequenina e fechada, por outro revelam-nos também os seus talentos.

O que em Portugal se chama utopia nas relações profissionais e humanas, existe noutros locais, temos que lutar em conjunto para obrigar à sua prática também cá.

Eu trabalho numa área (cinema, publicidade e afins) onde se menosprezam muito os portugueses e se ouve todos os dias "os estrangeiros são melhores" às vezes (e só às vezes) é verdade, mas a começar pela governação e pelo tecido empresarial.
Os portugueses podem ser muito profissionais, são é muito mal geridos.

Não falo com amargura porque, apesar de tudo, tenho conseguido conquistar o meu lugar (grandemente reservado aos estrangeiros) mas isto cansa e às vezes apetecia trabalhar uns tempos "lá fora". Par além de trabalhos muito pontuais, fico-me pelas viagens, a melhor escola para nos enriquecer e tornar melhores profissionais e pessoas

Boa continuação num país que parece merecer-vos mais do que o nosso

Teresa Leal

Ps Li algures que a Irlanda tem um dos melhores sistema escolares da Europa. Pensar que há bem pouco tempo era um país tão pobre quanto Portugal...

Cristina said...

Viva!
Eu estou naquela fase de transição: com 32 anos já não sou assim tão jovem, pelo menos aqui em PT, e tb ainda não estou na meia idade, mas estou arrumadissima numa arca. Qqr um se sente um trapo ao fim de 6 anos de tirar a licenciatura e os mesmos de desemprego: sou prof de matemática e nunca fiquei colocada. Resta-me agradecer aos nossos ministros de educação (?) por manterem a educação na miséria que se vê, pois assim spre posso ir vivendo das explicações!!Enfim, quero sair daqui...

Capitão-Mor said...

Hoje deixei uma referência a este espaço lá no meu blogue. Um dia destes escrevo o meu testemunho.
Abraço!

Era uma vez um Girassol said...

Ana, deixo-lhe um abraço e os meus parabéns pela coragem de tentar mudar de vida numa idade em que cada um de nós tem medo de arriscar!
Desejo-lhe as maiores felicidades.

"Mas uma coisa não tem: grosseria, chico-espertos, cunhas e “cunhados”e endeusamento dos que fogem aos impostos."

Gostei!!!!

Anonymous said...

Olá Ana...

Estive a ler a sua história de vida e não pude deixar de lhe vir dar os parabéns. É de pessoas assim que o mundo precisa. O meu nome é Nuno, estou em Londres, vim pra cá há um ano, pois não aguentava mais Portugal e a mentalidadezinha, além de que quero muito da vida ou, pelo menos, de fazer muita coisa na vida. Yambém fui jornalista durante cinco anos na imprensa, mas não dá!
Um grande beijinho e se quiser contactar-me, gostava muito envie um e-mail para nuno@arbo.com.

Catarina said...

Olá Ana!
Sou uma licenciada em Comunicação Social, com 23 aninhos... fui sempre uma aluna exemplar e trabalhei sempre durante o curso uma vez que não tinha pais que me pudessem sustentar... não tenho cunhas e cometi um grande erro durante o curso, como trabalhava e estudava não me fui "socializando" muito com os colegas de turma, agora os que tinham cunhas vão arranjando emprego para os colegas de copos.
Falas na geração dos mil euros? Quem me dera... a melhor proposta que já vi até hoje foram 500€ a recibos verdes num jornal nacional... quem mora com os pais ainda se vai sujeitando, ora eu ganho mais como caixa (que sou neste momento) do que alguns conhecidos como jornalistas.
Estou ANSIOSA para deixar Portugal, gostava de ter a sua coragem... eu sou aquele género de pessoa que arrisca mas com uma certa base de segurança... mas há-de chegar o dia em que não dá mais para aguentar este país.

Excelente blog!

Rita Burnay said...

Identifiquei-me muito com esta história apesar de ter tido tudo muito facilitado pelos meus 25 anos...
Quando arranjei este trabalho que tenho agora só me pediram dedicaçao e cada vez que cumpro sou elogiada.
Mais que trabalhar pelo dinheiro eu trabalho porque gosto e em Portugal estava a deixar de gostar...
Como é que podemos gostar de ser explorados, mal pagos e nunca incentivados ou elogiados?

Ana Quaresma said...

Catarina:
" Se está ansiosa para deixar Portugal" , como diz, não deixe correr o tempo! Faça como muitos e muitos jovens irlandeses que tenho conhecido ( e olha que são mesmo muitos!) que no fim dos estudos vão viver pelo menos um ano fora da Irlanda, ou como "Au pair" ou em "trabalhos sazonais" . Aqui é frequente irem pelo menos um ano para a Australia, um ano para França, um ano para Inglaterra ou qualquer outro país europeu, para não falar na América que é também um destino frequente... Alguns regressam à Irlanda, às vezes ao fim de 6, 7 ou 10 anos...outros ainda não regressaram. E isso é encarado de uma forma absolutamente normal, nem sequer se fala em "emigração". Vão conhecer outras culturas, outras realidades, viajar. E pelo que tenho observado, os ingleses, franceses, alemães, suiços, holandeses, nórdicos( etc)fazem também muito isso. Tenho contactado jovens das mais diversas nacionalidades que estão em Galway e todos falam nessa realidade. Vêm por uns tempos ( não sabem ao certo quanto) e planeiam ir para outros países...
Talvez o facto de se estar no "centro" da Europa torne mais fácil esta realidade. No caso dos nativos de língua inglesa isso é sem dúvida muito mais fácil, mas as línguas aprendem-se e aperfeiçoam-se.
Se trabalha como caixa, pelo menos aqui na Irlanda, não é difícil arranjar colocação...
Beijinhos e felicidades!

Rita Burnay:
Parabéns Rita! Claro que mais importante que o dinheiro é trabalhar porque gostamos e isso sim faz-nos sentir que estamos a viver.

CRAF said...

Acho admirável a tua coragem, tb eu estou com isto pela ponta dos cabelos.Descobri este blog a poucos dias e não passa um dia que não faça uma visita, estou com as vossas histórias a ganhar coragem, mas a tua é notável, porque tb eu estou a chegar aos 35, pois é.Alguma dica?

Anonymous said...

Bonjorno, mindthisgap.blogspot.com!
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Anonymous said...

Vivi 14 meses em Dublin (Agosto 2008 - Outubro 2009), considero uma cidade sem grande qualidade de vida, se comparar com o fluxo de dinheiro que por lá circula...

Infelizmente não trabalhei directamente com irlandeses mas sim com portugueses e italianos. Bela experiência, ainda assim, voltava a repetir.

E as festas, ai as festas!

Arrependo-me de não ter viajado mais dentro da Irlanda mas com viagens tão baratas para o resto da Europa... a tentação era grande!

Passei um fim de semana em Galway. Linda, é a minha definição. Honesta: é uma pequena cidade mas tão vibrante. Dublin parece uma aldeia que cresceu aos tropeções.

Galway é uma pequena cidade na sua essência e por isso: "honesta". :-)

E fui um dos poucos seres humanos que foi aos Cliffs num dia de sol!!!

Em Outubro de 2009 mudei-me para Malta, adoro a ilha, a história, a rocha dourada, o mar tão meu!

Mas adivinhem onde serão as primeiras férias fora de Malta?

Em Dublin, pois claro! Para rever os "Tugas- dublinenses".

E claro, desde que mudei para Malta, eles também têm vindo de visita, o clima é bom e com a propaganda histórica que eu faço...

A quem quer sair de Portugal: pesquisem no monster.ie, toplanguage, etc e mesmo nos sites de multinacionais na secção de recrutamento.

E quando se começa... fica o bichinho do próximo destino.

Boa sorte.

Pat