10.5.09

Lénia Fernandes, Conservadora-Restauradora de Fotografia, dos Estados Unidos para a Madeira


Há algum tempo que sigo este blog, e tenho estado à espera de que mais alguém publicasse novos comentários. Fartei-me de esperar, e porque não, decidi que ia eu partilhar um pouco da minha história. Pode ser que tenha algum interesse, ainda que talvez seja muito prematura.
Quando li este blog primeira vez, identifiquei-me logo com o testemunho da Joana Pedroso, que está na mesma área que eu, e acabou por parecer um foco de esperança.
Estive nos últimos 5 anos a tirar o curso em Conservação e Restauro em Portugal, e acabei (wuhu!) no passado mês de Outubro.
Devido a muitas razões, entre as quais o não estar em sintonia com a mentalidade das pessoas mais directamente relacionados com a organização do meu curso, acabei por sempre tentar fazer o possível para me afastar da universidade o mais rápido possível. A mentalidade que prevalece não é propriamente muito cooperativa e positiva, pelo contrário. Não estava interessada em estar num ambiente onde regra geral não interessa educar, interessa fazer o que privilegia o indivíduo. Já quando comecei a ter aulas práticas de restauro quis fazê-lo fora da faculdade, ainda que com pessoas sempre a ela ligadas, mas era um pequeno passo em frente para mim.
O último ano do meu curso é para estágio, o qual os alunos devem "arranjar", mais ainda aqueles que não estão propriamente interessados em pegar numa das áreas de interesse da faculdade, as tais generalistas de que a Joana já falava. No meu caso, quis pegar mais em fotografia. E queria outro ambiente. Contactei várias instituições, ainda pensei em Erasmus, mas acabei por desistir da ideia. As instituições que tinham acordo com a minha Faculdade não pareceram ter interesse em que eu para lá fosse, e isso ia acabar por ser o mesmo que ficar em Portugal.
Falei com pessoas com mais conhecimentos que eu na área de Conservação de Fotografia, abordei outras instituições, e esperei por algo positivo. Por fim fui aceite no num laboratório nos Estados Unidos. Não deixava de ser num ambiente universitário, nem sem ser direccionado para a investigação, mas havia ali mais qualquer coisa de apelativo. Não, não sabia onde me ia meter, em que ambiente, que condições, mas fui à mesma, depois de tratar de imensa burocracia para obter o visto.
E fui. A diferença ao nível de ambiente era completamente abismal. Primeiro que tudo, trabalhei com pessoas que são referências na área, que tratava pelo primeiro nome, ao contrário da idiotice que prevalece em Portugal do "senhor doutor". Muitos não merecem sequer o título mas exigem-no. De facto o profissionalismo prevalece, não o fingimento.
É muito cómico pensar que um dia tive uma dúvida num livro que estava a ler, e acabei por ir perguntar ao autor cara a cara, com alguma vergonha, pensando que talvez fosse eu que estivesse a interpretar mal o que lá estava escrito. A inibição foi completamente desnecessária, ou ele não teria dito: "De facto enganei-me aí. Vamos procurar a referência certa". Se fazia algum trabalho e pedia opinião, era bem visto e elogiada de imediato. Para mim isso não era comum.
Quando é que este tipo de humildade apareceria num contexto académico em Portugal? Talvez eu tenha muito más referências, mas penso que não será muito comum.
Cumpri e desfrutei do meu trabalho, aprendendo muito mais do que alguma vez antecipava. Percebi algo que já devia ser óbvio: promovendo a educação das pessoas é que se consegue fomentar o interesse na cultura. Conheci tanta coisa que pensei que só veria nos filmes, muitas que adoraria rever. Criei laços com imensas pessoas, não fosse o ambiente familiar que havia no laboratório. Aperfeiçoei o meu Inglês, e fiquei muito orgulhosa de para algumas pessoas eu até já ter sotaque no Midwest.
Também passei imenso tempo sozinha, dava por mim a querer falar em Português mas não tinha com quem o fazer (a não ser quando usando o Skype). Cheguei a expor-me a -16ºC (que saudades de sentir o calor do sol...). Passei horas sem fim em transportes públicos (que deixam muito a desejar na frequência). Vi que por muito que a América queira ser um local de igualdade, o racismo e a divisão de classes existe. O sistema de saúde acaba por parecer primário, quando nem quem tem seguro está livre de pagar rios de dinheiro para cuidar de si. Ao nível de educação, há mais prestígio em entrar numa universidade privada do que numa pública, e paga-se (e muito) para isso, o que exclui automaticamente aqueles com menos posses. Sim, o sentimento de competição e consumismo são impressionantes.
No fim, quando voltei, em Maio de 2008, nunca pensei que me custasse tanto. As pessoas significavam mais para mim do que aquilo que eu quis admitir. Tinha agido de modo independente por algum tempo, a tomar as decisões sobre a minha vida, e não queria regredir. Voltar a Portugal ia pôr termo a isso. E pôr os pés na faculdade foi um autêntico massacre. Voltei ao ambiente de que tinha fugido, mas tinha de ser. Como disse, acabei o curso, e é isso que interessa.
Não é novidade nenhuma que as oportunidades de emprego estão a diminuir. Farto-me de pensar que ter acabado o curso agora foi uma altura péssima, mas melhor do que a alternativa de continuar a pagar propinas sem destino. Já não é fácil arranjar emprego quando se trata de trabalhar com cultura, agora ainda pior. Mas claro, não sou de todo a única nesta situação. O que não deve faltar são pessoas a contar os tostões todos, ou simplesmente à procura deles. Questiono-me se tem interesse ficar num local onde não parece haver interesse no que posso fazer.
Provavelmente por ter tido uma experiência positiva acho que o meu futuro não está em ficar, mas sim em partir; acho que é o denominador comum de quem saiu e sentiu que valeu a pena correr riscos. Quando fazemos isso tornamo-nos mais competitivos, e daí mais produtivos, o que justifica a fama dos portugueses que trabalham no estrangeiro em oposição aos que se mantêm no país.
Tenho feito por arranjar oportunidades, agora falta-me aceitação. Veremos. Com sorte daqui a uns tempos tenho algo novo para escrever, numa nova perspectiva.
O que interessa é manter a força. Vai chegar a minha vez.

14 comments:

Pedro Castela said...

parabens lenia :) fico muito contente pela tua experiencia e desejo-te muito boa sorte. não tarda nada envias a segunda parte da tua aventura..

lénia said...

Obrigada Pedro!
Espero que tenhas razão, haja boas razões para a sequela!

Hapi said...

hello... hapi blogging... have a nice day! just visiting here....

Keyword said...
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Hugo said...

Lenia,

Boa sorte para o teu futuro. Tudo se consegue na vida, so e' preciso querer e ter garra.

Abraco,

Hugo

lénia said...

Olá Hugo

Muito muito obrigada pelo apoio. Pode parecer parvo, não te conheço, mas faz a diferença saber que o que quero para mim é suficientemente lõgico para que estranhos me dêem força para continuar a acreditar que é possível.

A garra, bem, essa vou provavelmente ter que pedir emprestadas ao meu gato. Uma manicure mental também se aceitava, se existisse.

Tudo de bom para ti também.

CRAF said...

A muito tempo que não visitava o meu blog favorito e fico muito contente por ver novas histórias de coragem, nunca desistas dos teus sonhos e ambições por muito que as vezes o mundo inteiro ande ao contrário de nós, força Lenia.

lénia said...

Olá CRAF
Não sei como agradecer o apoio de outra maneira que não seja escrevendo um sincero obrigada, e desejar-te igualmente um futuro risonho.
A mim nunca me parece demais sonhar com o que se quer fazer da vida. De que outra maneira posso acreditar que é possível?
Não me considero um exemplo de coragem, quem sabe um dia vejo as coisas por esse prisma. Até agora só fiz o que achei que tinha de fazer, mas aspiro a ter coragem suficiente para não desanimar perante as actuais circunstâncias.
A esperança é a última a morrer, não é verdade?

xaumin said...

Olá Lénia,

Tb eu te ou força. Partilho completamente a tua opinião em relação ao ensino universitário em Portugal.
Tb eu estou pela 3º vez em vias de regressar a Portugal e para te dizer a verdade, não quero voltar. Não pelas pessoas e pelo estilo de vida, mas pela vertente profissional.
Alex

lénia said...

Alex,


Muito obrigada por compreenderes o meu ponto de vista. É bom saber que mais alguém vê aquilo que nós vemos, que não sou eu que sou paranóica (bem, talvez até seja um bocadinho...), mas pelo menos não estou sozinha neste ponto.

Seríamos todos tão mais felizes se o nosso país nos oferecesse condições... De facto, da maneira como as coisas estão, quem é que quer voltar sem ser de férias?
A verdade, como já toda a gente sabe, é que ter um canudo na mão não é de todo relevante. E pelos vistos ter experiência no exterior também não. Para isso era preciso se perceber que quem traz ideias de fora e tem boas intenções quer contribuir para a evolução do povo português, não colonizá-lo.

Desejo-te muita sorte neste novo retorno. Vamos fazer figas para que as coisas se resolvam da maneira mais feliz.

Anonymous said...

Olá Lénia, fiquei encantada por te encontrar aqui... A sério. Ao tempo que não tinha notícias tuas mulher e adorei saber desta tua maravilhosa experiência nos "states" e quem sabe num outro lugar qualquer, brevemente. Já tinha ouvido falar que tinhas ido para os estados unidos e é sempre um orgulho saber que há pessoas como nós que arriscam e fazem-no bem.
Também quero uma história para contar e vou fazer por isso. Obrigada por ajudares a inspirar. Beijinho. Juliana.

lénia said...

Juliana, se és a Juliana que eu penso, e deves ser, tendo em conta que és a única que conheço, tenho de dizer: que surpresa tão boa!
Obrigada pelo feedback positivo (quem sou eu a inspirar seja lá quem for?), é importante, mais ainda quando é de alguém que até nos conhece minimamente. Realmente há imenso tempo que não nos vemos, mas não é por isso que não deixo de te desejar o melhor que o mundo tem. O penteado de torcidinhos que te fiz já tem 7 anos, mas não é por isso que se esquecem esses momentos! Ainda nos rimos um bocado...
Após um período de dita calma na nossa ilha, penso que os riscos terão de voltar a ser a ordem do dia. E sinto que assim tem de ser, não quero ser o género de pessoa que chega a um ponto da vida e reflecte nas oportunidades que deixou passar.
Fico à espera da tua história. Já tens pelo menos uma leitora curiosa!
Beijinhos com saudades!

Juliana Freitas said...

ahaha... que prazer ler-te amiga.
Em breve também voltarei á ilha, vivo uma vida que não é a minha. Voltar ás raízes e voltar a arriscar, preciso de um tempo de paz. Coisa que não a tenho pelo menos por agora. Estou a trabalhar em Lisboa, mas é breve. As coisas como estão e agora a falar num panorama extenso, não podem continuar.

Beijinho.

lénia said...

Serás com certeza bem-vinda de novo à ilha! Acho que à primeira este é um bom sítio para ter alguma paz de espírito, pelo menos em comparação com Lisboa.
Mais uma vez virá a mudança... eu também espero a minha.
Bjs