8.2.09

Carla Neves, Engenheira biotecnológica, Haia, Holanda.

A minha saída de Portugal começou primeiro pelo desejo de estagiar por 6 meses num ambiente novo, segundo por encontrar neste novo país gente simpática, com excelente espírito de trabalho e camaradagem e consolidou-se numa mudança definitiva para a Holanda por causa do namorado holandês que, para além de ser um companheiro excelente e incomparável, ainda se esforça por tentar falar português com a minha mãe o que a faz muito feliz mesmo tendo a filha longe. A história que me trouxe à Holanda: pais de realização pessoal e profissional...já que cada uma destas vertentes da vida é tão importante como a outra.

No últimos anos dos meus estudos (Engenharia biotecnológica na Universidade do Algarve), quando se começa a pensar no que virá mais para a frente, comecei a planear/ desejar fazer o meu estágio no estrangeiro. Se me calhasse a sorte de receber a famosa bolsa Erasmus, de que se ouvia falar cada vez mais e que se tornou muito popular, a possibilidade do estágio no estrangeiro seria mais facilitada porque a pressão económica sairia um pouco dos ombros dos meus pais. Sem saber ainda para onde ir, ou se iria de todo, comecei por fazer um curso de Castelhano porque na altura a Espanha parecia-me um dos possíveis países de uma lista incompleta e bastante dinâmica de escolhas.

No ano em que me pude candidatar (embora ainda com o projecto final de curso para fazer e que viria a ser concluído depois do meu estágio) candidatei-me à bolsa de Erasmus (eu e mais umas 20 pessoas) e não fui imediatamente contemplada mas após uma redistribuição do dinheiro disponível para as bolsas (que não tinha sido aplicado nas outras faculdades por falta de candidatos) acabei por receber cerca de 1000 euros que chegou exactamente para pagar o alojamento durante os 6 meses e meio do meu estágio na Holanda, Universidade de Wageningen, no Departamento de engenharia alimentar e de bioprocessos (sendo as viagens, alimentação e afins patrocinado pelos pais).

A escolha do local foi primeiro uma escolha pelo país (os mais interessantes devido à área de investigação eram na altura a Bélgica e a Holanda) mas alertada por um dos professores que, na Bélgica, a partir do momento que percebessem que eu sabia um pouco de francês nunca mais falariam em inglês escolhi então a Holanda.

Acabado o estágio voltei para Portugal para me enterrar na biblioteca da Universidade com as minhas colegas até acabar o projecto final de curso. A conclusão da minha licenciatura coincidiu também com o fim do curso do meu namorado que entretanto estagiou nos EUA.

Era agora altura de escolher onde arranjar poiso, juntos, e de maneira a que ambos pudessemos trabalhar. A 1ª hipótese de ficar nos EUA, onde lhe ofereceram um doutoramento, foi descartada, porque eu não tinha nada em vista e não é fácil arranjar emprego sem ter visto de permanência. A 2ª hipótese de ficar em Portugal, já que ele também recebeu a proposta para um doutoramento no IST por parte de um professor português que estava de sabática nos EUA, também foi descartada porque arranjava ele trabalho e ficava eu no desemprego. A 3ª hipótese de ficar na Holanda pareceu então a mais prudente já que o meu CV apresentava alguma mais valia para concorrer a empregos cá. Mudei-em então, em 2006, de bagagens e...canudo.

Passado 2 meses à procura de emprego e quase a dar em maluca por não ter nada para fazer aceitei um emprego fora da minha área (suporte de vendas) que me valeu uma valente lesão no pulso mas alguma genica em contactar pessoas e ganhar à vontade em entrevistas. Acabei por descobrir que quase tudo e todos que têm a ver com Biotecnologia na Holanda passaram por Wageningen e isso acabou por jogar a meu favor. Entretanto arranjei emprego na minha área onde rapidamente progredi, quer em função quer em salário: após um ano como assistente de investigação passei a engenheira (junior) de bioprocessos e, 6 meses mais tarde, a engenheira de bioprocessos. E ele está agora prestes a finalizar o doutoramento cá (à 3ª foi de vez).

Sinto que ainda tenho muito que aprender mas que me encontro no ambiente ideal para isso e ao mesmo tempo sinto-me valorizada ao contribuir para a resolução dos problemas que se nos deparam ao longo dos projectos em que estou envolvida. Dá-me também algum gosto pessoal saber que depois de mim contratam outros portugueses (já que, verdade seja dita, se eu não tivesse um desempenho que agrada á gerência isso não aconteceria).

Só posso comparar a minha experiência aos meus amigos mais próximos que ficaram em Portugal, onde tiveram de largar mão da Biotecnologia ou então são tratados no emprego como se tivessem de dizer obrigado por poderem trabalhar e são mal pagos, e à outra parte (MAIORIA) que emigrou para fazer doutoramentos (4 no reino Unido, 1 na Alemanha, 3 na Holanda) ou para trabalharem em empresas: existem mais empresas de Biotecnologia na Holanda mas menos estudantes do que em Portugal e as bolsas de investigação cá são mais que suficientes para se ter uma vida desafogada por isso pergunto-me quando é que esta situação vai ser corrigida em Portugal (quer pelo incentivo á criação de empresas de perfil científico/ tecnológico ou pelo menos por um planear mais inteligente dos cursos que abrem todos os anos e que só servem para o desemprego ou para a fuga de cérebros para o estrangeiro).

Estar longe da família é compensado com os telefonemas e as conversas no messenger, com a minha mãe a tentar aprender inglês aos 65 anos para poder falar com o meu namorado e com as viagens de avião que compradas com alguma antecedência não pesam na carteira (ou com os pais a virem de Portugal de carro de propósito para trazerem o enxoval!). Estar longe dos amigos cada vez se aplica menos: porque muitos caem por aqui como moscas no mel, e os outros encontro-os nos jantares anuais quando todo o grupo de emigrados chega a Portugal para a férias de Natal.

O curso de espanhol foi muito divertido, mas já esqueci tudo o que aprendi e lembro-me apenas o que sabia de ver televisão espanhola nas férias de verão. O foco passou agora para os cursos de holandês que vou tendo (hobbie caro) e que dão frutos devagarinho (à velocidade da lesma) mas que espero que se consolidem com o tempo e a prática. Com o doutoramento dele finalizado pensamos passar um ou dois anos noutro país para ambos podermos ter a experiência de viver e trabalhar no estrangeiro (EUA ou Suiça, se a crise financeira não atrapalhar os planos) mas definitivamente voltaremos à Holanda. Entretanto sonhos de voltar a Portugal...talvez na idade de reforma para apanhar sol no Algarve!

4 comments:

Anonymous said...

Não podia discordar mais quando dizes que em Portugal não há "incentivo á criação de empresas de perfil científico/ tecnológico". Estudoos internacionais sobre inovação, apontam àrea do empreendedorismo, como a única em que Portugal não está mal posicionado. Neste assunto o que me preocupa é que estão a formar doutourados que depois são praticamente empurrados para o caminho do empreendedorismo. Como nem todos tem vocação ou perfil para serem empreendedores isto vai dar mau resultado...

Pizzicato said...

Ahahah! É mesmo verdade que quase toda a gente na área da biotecnologia passa por Wageningen. Eu passei durante o meu Erasmus, por aqui continuo para um 2º mestrado e por aqui espero continuar para doutoramento. Boa sorte aí por Den Haag

Hugo said...

Carla,

fiquei muito contente com o seu testemunho. Cada post neste blog e' como uma canja de galinha para a minha alma. Infelizmente nascemos num pais onde o sucesso dos outros e' muito mal visto e fortemente criticado. A nao ser que sejam coisas de chico-espertice, como por exemplo, o futebol.

Fico imensamente contente tambem de saber que o seu namorado esforca-se por falar algum portugues.

Faco votos para que sejas feliz ai fora ;-) eu sei que sou mais feliz longe de Portugal.


PS: agora que ja critiquei Portugal e os portugueses, prepara-te para um crescimento exponencial aos comentarios do teu post ;-) eu tenho esse dom

Anonymous said...

SE quiser tirar um curso de holandes gratuito, informe-se na gemeente da sua área sobre a possibilidade de tirar o curso de inburgering. È para estrangeiros (não UE), mas pode voluntariar-se como eu fiz. Já estou a estudar holandês há 4 meses e como já falava alemão, já é quase fluente.
Cumprimentos
Rui em Wageningen