6.4.08

Joana Pedroso, Conservadora-Restauradora de Papel. Haarlem, Holanda

Então aqui fica mais uma história de uma imigrante da nova geração.
Acabada de fazer o curso sentia-me super insegura em relação ao que ao fim de cinco anos aprendi. A educação em conservação e restauro em Portugal é bastante mais generalista que no resto da Europa e para quem, como eu, deseja a especialização na área de papel, a educação em Portugal roça o ridículo.
Fiz o estágio de final de curso num museu na Holanda (Haarlem), confirmei o que já suspeitava em relação ao meu curso e apercebi-me das diferenças abismais a nível de profissionalismo e produtividade quando comparando os dois países. Dando um exemplo bem explícito: os conservadores restauradores de papel da área de Amesterdão e Haarlem reúnem-se de 4 em 4 meses para partilhar experiências, dar a conhecer novos materiais e técnicas que descobriram, e também para contar os "erros" e os "desastres" que aconteceram. Em Portugal reina o segredo, é ainda uma profissão de mezinhas e receitas secretas (claro que há excepções! e espero que os meus colegas que ficaram possam pouco a pouco mudar este panorama).
Decidi então tentar ficar, o meu plano era melhorar enquanto profissional para ter mais hipóteses de me empregar em Portugal quando voltasse. Ainda durante o estágio enviei currículos a pedir estágios profissionais (não remunerados) em regime de part time com o plano de depois arranjar outro emprego para suportar os custos. Assim o fiz e arranjei um emprego e o estágio no mesmo atelier, ou seja, trabalho cinco dias por semana e apenas recebo três. Para o único holandês que conheço fora do trabalho a minha situação é ridícula, pois não percebe como me posso submeter a estas condições, trabalhar de graça dois dias por semana. Sim, talvez esteja a ser explorada mas na verdade o que estou a aprender e todas as experiências que até agora o atelier me proporcionou (trabalhamos com os museus mais conceituados da Holanda e não é raro passar um dia a tratar de um Rembrandt ou de um van Gogh) justificam este sacrifício.
Mesmo apenas recebendo 3 dias por semana, recebo mais de qualquer um dos meus colegas que recebem os 5 dias por semana em Portugal. Partilho um apartamento com duas outras expatriadas (uma búlgara e uma alemã), não preciso de contar os tostões quando vou ao supermercado, saio quase todos os fins-de-semana, dou-me a alguns (poucos) luxos, mas não poupo nada no fim do mês.
Após quase um ano e meio fora já não penso em voltar tão cedo. Tenho saudades do meu país, tenho saudades da minha língua, da família e amigos e claro, do clima.
No futuro pretendo sair da Holanda, o clima e a minha vida social pouco estimulante são as causas. Ainda não sei para onde e quando, mas Portugal não aparece nas opções.
É preciso alguma coragem para mudar de país sem conhecer ninguém e sem conhecer a língua (apesar de todos falarem inglês aqui, falar holandês é um passo muito importante para a integração). Ficar por outro lado é mais fácil, a rotina rapidamente tomou conta de mim e saber o que me espera em Portugal torna o retorno pouco aliciante.
Não posso aconselhar ficar ou sair de Portugal porque depende de cada um, do que desejam e do que precisam para se sentirem felizes. No fundo é isso que todos procuramos, a felicidade, em Portugal ou no resto do Mundo.

10 comments:

Tuxa said...

Joana, ha muitos portugueses entre os 30/35 em Amesterdao, bem pertinho de ti! Se quiseres ter mais vida social, porque nao te juntas a nos?!

Futura Expat said...

Olá, Joana!
Podes dizer-me se aí é fácil arranjar apartamento a dividir com outras expats e quanto fica mais ou menos a cada uma por mês?
Obrigada!
Beijinhos e boa sorte!

uva trincada said...

Olá futura expat :)
É relativamente fácil arranjar um quarto num apartamento, posso dar-te alguns sites se souber o teu mail.
O meu é joanabpedroso@gmail.com

Boa sorte!

Joana

futura expat said...

Joana, muito obrigada!
Já te enviei um mail.
Beijinhos
;-)

tatoia said...

Joana, parabéns! És uma lutadora!

De facto, quando saímos de Portugal muitas vezes pensamos ou nos dizem, que depois podemos sempre voltar e com um curriculo no estrangeiro o que poderia parecer uma maravilha... Mas depois de sairmos e olharmos para trás, voltar a trabalhar em Portugal não parece nada aliciante não é??

Ás vezes também penso como tu, até posso mudar de país, mas nunca para voltar para Portugal. Portugal é destino de mini-férias para visitar a familia, os amigos e o Sol ;)

Beijinhos! Muito boa sorte! E não te sintas mal por ganhares um pouco menos que os holandeses que conheces, um passo de cada vez, e nesta vida nem tudo é dinheiro, aprender, sentirmo-nos a evoluir, uteis e realizados, é bem mais importante!!

Vanessa, Dublin.

http://tatoiapeople.blogspot.com
tatoiagirl@gmail.com

Diana Marques said...

de facto está tornar-se cada vez mais uma opção sair de Portugal quando se acaba um curso universitário... eu ainda estou na universidade, porque mudei de curso mas, sinceramente, estou a pensar ir para fora quando o acabar. as perspectivas cá não são nada aliciantes e cada vez penso mais em sair do meu país. Admiro todos os que vão porque é sempre complicado adaptar-se a um país novo, vida nova.. é um acto de coragem!
Gostei muito deste blog e vou adicioná-lo à minha lista no meu =)
abraços!

Igor said...

Não tem que ver com o post, apenas para dar os parabéns. Excelente ideia, a dos autores deste blog.

Anonymous said...

Partilhar apartamento? :-|

uva trincada said...

partilhar apartamento! :)

lénia said...

Olá Joana.

Primeiro, tenho de te avisar que a primeira vez que visitei este blog vi precisamente o teu post em primeiro lugar, e assustei-me um pouco. Porquê?
É simples. Conheço outra Joana Pedroso a estudar Conservação e Restauro, e na altura não estava a perceber como é que de repente ela não estava em Portugal! Mas logo li as coisas melhor e lá percebi que não eram a mesma pessoa, era só coincidência.

Fora isso, fiquei contente que há por aí mais alguém com semelhanças a mim. Eu sou outra da Conservação e Restauro, acabadinha de terminar o curso. Como muitos outros, não me vejo a ficar por Portugal por muito mais tempo. Como já se sabe, só se fala em crise, e nestas alturas a primeira área a ficar para trás é a cultura e tudo o que com ela estiver relacionada.
Não é de admirar por isso que se cheire o desespero no ar.

Tenho estado à procura de estágios profissionais, ou algo que se assemelhe, sobretudo nos EUA, e o que vejo é que há oferta. É completamente o contrário de Portugal, em que nem implorando se se consegue chegar a algum lado.

De qualquer maneira, louvo a tua coragem! Espero conseguir ter metade da que tens para seguir em frente e pôr em prática alguma coisa do curso que me fez querer bater com a cabeça nas paredes durante 5 anos.

E a todo o pessoal que escreve no blog e relata as suas experiências, parabéns pelos vossos sucessos, e obrigada pela inspiração.