13.2.08

Pedro Martinho, Licenciado em Arquitectura. Madrid, Espanha


Posso hoje dizer com algum orgulho e com alguma pena, ao mesmo tempo, que já vivi em 3 cidades, trabalhei em 5 ateliers e estou agora, mais que nunca, com a sensação de que todas as experiências (tanto em Portugal como fora) valeram a pena para chegar onde hoje estou.

Saí do País com 23 anos para realizar um estágio obrigatório pela Universidade. Fui tentar a minha sorte para Barcelona onde residi durante um ano, trabalhando num atelier de cerca de 40 pessoas. A experiência foi extraordinária mas tinha data de validade, pois era obrigado a voltar à Universidade para terminar os estudos.

Assim que acabei, deixei-me ficar num atelier onde já trabalhava em Lisboa e por aí fiquei quase dois anos, altura em que decidi arriscar uma vez mais, sabendo o que me esperava em Portugal na minha profissão. Queria casar-me, ter casa própria e a ganhar 250 (!) euros por mês, pago a recibos verdes era uma ilusão pensar que alguma vez ganharia o suficiente para ter uma vida própria e independente da ajuda, mais que necessária, dos meus pais. Era dinheiro, tempo para mim e para os meus trabalhos e uma certa distinção no trabalho que eu procurava e que sabia não conseguir no local onde estava: um atelier de renome, com projectos nacionais e internacionais, nomes em revistas e prémios, enfim, um sem número de razoes que não se entendia esta exploração que efectuavam, e que ainda a fazem, a cerca de 10 recém-licenciados que davam 10 horas por dia de trabalho, incluindo algumas noites e fins-de-semana, sem qualquer benefício monetário ou prático...um simples "bom trabalho" parecia não existir, e as pessoas esmorecem...

Saí em Fevereiro de 2007 rumo a Madrid. Fui a entrevistas e fiz contactos. Percorri a cidade em procura de trabalho em ateliers de arquitectura e assim foi: um dia fui chamado e nem viram o portfolio, apenas me disseram o que ia fazer, qual a minha função, quais os objectivos e expectativas que me ofereciam e que eu sonhava e escreveram o salário mensal num papel. Perguntaram-me se estava interessado e eu respondi que sim, claro!

Hoje sou casado, temos dois rendimentos razoáveis, que nos permite uma vida sem olhar todos os dias para a conta, uma casa recheada de coisas nossas e uma vida cheia de portas por abrir e perspectivas por cumprir. Hoje sou mais feliz, apesar de me custar pensar no que deixei para trás...a família, os amigos, a cidade, os costumes. Ao fim e ao cabo resta-nos fazer amigos e hábitos novos e a família está a 50 minutos de avião...

O mais normal será voltar dentro de uns anos, mas será que terá mudado alguma coisa? Será que vale a pena o esforço?

8 comments:

Alberto said...

Gostei muito do teu texto! Perfeito! Un abraço desde Barcelona (a 2h30m de AVE), Alberto

mnvalente said...

Caro Pedro, parabens pela forca de procurar algo melhor.

Esses tipos que pagam 250 euros/mes dormirao bem de noite? Terao eles uma consciencia? Nao havera ninguem perto deles que lhes pergunte se eles nao tem vergonha?

Tenho muita pena que isso seja a regra no nosso pais e nao a excepcao. Quando chegarmos ao lugar desses senhores, estou seguro que Portugal sera um lugar melhor para os jovens.

Um abraco.
Mario

Nuno Coelho said...

Olha, sou designer estou em barcelona faz agora 1 mes e meio pelo mesmo motivo que tu. Apesar de ter tido sorte em portugal e para a minha iade nao ter sido mt mal pago, fartei-me das condições e das perspectivas de futuro medíocres. Agora estou aqui, super feliz, ainda a procura de emprego mas cheio de energias positivas e boas perspectivas.

Se fiz bem ou nao vir para cá, só mais la para a frente saberei mas parece-me que sim :)

Anonymous said...

Boas!!
andei aqui pela net a ver informações de ateliers de fora e achei este blog... é verdade a situação aqui neste país é muito má, e para a nossa área artes pior é. Estou no ultimo ano de arquitectura...sempre estudei para pagar o curso...embora com muitas dificuldades económicas vou conseguir licenciar-me. Já trabalhei também num atelier, a principio prometeram fundos e mundos...com o tempo logo vi a realidade, ficaram-me a dever dinheiro e a equipa que estava comigo também se começou a desintegrar.
Acho que mereço uma vida melhor, já que batalhei bastante para obter o curso, juntamente com a minha familia. Daí eu começar a procurar relatos da vida profissional no estrangeiro, já que a minha ideia e objectivo é acabar o curso e ir procurar uma vida bem melhor.
Poderiam-me dar um conselho??
Pelo pouco que li do programa Leonardo da Vinci, ao que me parece os candidatos ainda serão seleccionados pelas médias e montes de fazes de afrição...Eu por exemplo já pensei em ir pelo menos a 2 paises, Espanha e Holanda....e em qualquer um deles, já pensei em arregaçar as mangas e com portfolio e curriculo, bater ás portas dos Ateliers, falando pessoalmente...
A vosso ver, já que estão no estranjeiro qual a melhor forma para um emprego no estrangeiro??
Mails 1º?? ir e procurar pessoalmente??? ir e procurar dps quando lá estiver enviando a tds os ateliers???
Gostaria de ter alguma resposta, já que ando bastante perdida quanto a este assunto...
Obrigada pela atenção
P.S- poderia postar aqui a resposta? thanks! :)

Rita Burnay said...

olá, antes de mais ficámos abismados com a tua história e desejamos que o futuro te traga coisas boas.
A minha experiência e a do Pedro é só por Espanha e a melhor forma é primeiro enviar mails onde envies também algumas imagens de trabalhos e curriculum e esperar um pouco para receber respostas. Se entretanto não responderem também deves telefonar para os ateliers e pedir para marcar uma cita (entrevista). Depois e o mais importante é com ou sem citas marcadas ir aos ateliers pessoalmente com um portfolio impresso e um curriculum. Em Espanha normalmente é tudo muito profissional mas também há alguns ateliers que apostam na exploração e por isso o importante é ter várias hipóteses para perceber qual te oferece melhores condições. Este processo demora um pouco mas no fim compensa, o importante é não desanimar mas prepara-te para ouvir muitos nãos e alguns nem sequer são directos e ficas eternamente à espera de um telefonema que nunca chega.
Em relação à Holanda temos uma amiga que vai agora para lá e pelo que sabemos o sistema foi o mesmo mas ela só lá foi com entrevistas marcadas porque é um bocado mais fora-de-mão. A única coisa é que na Holanda se vais para fazer um estágio pagam mal porque esperam que te candidates a bolsas.
Muito boa sorte para o futuro!

ana moreira said...

Olá nuno coelho, Olá a todos!

Também sou designer e desde que descobri este blog que por ironia foi no dia 1 de Junho, dia da criança e dia de todos os sonhos, obtive o impulso que me faltava para procurar trabalho fora de Portugal. Ao contrário do Nuno ainda não tive a experiência a nível de trabalho cá a não ser o estágio curricular em que vi que ficando em território nacional não vou ter grandes perspectivas de crescimento...tal como tenho visto na longa busca de encontrar trabalho.
O mais engraçado é ainda não ter saído de Portugal e já sentir muito do que aqui dizem.

Espero em breve poder deixar aqui um testemunho da minha saída deste país que me viu nascer

Ana Moreira

Anonymous said...

Pelo mesmo motivo encontrei este site, o qual decidi ler atentamente.
Se tudo correr como eu planeio em janeiro de 2009 termino o curso. Sou trabalhadora estudante desde o meu 3º ano de faculdade e tive este último ano a trabalhar 3 tardes p semana num atelier. Foi sem dúvida uma mais valia para mim, porque aprendi imenso, mas o ordenado dava somente para a gasolina do mês.
Felizmente tenho ajudas...
Já ando a pensar no que hei de fazer depois desta etapa terminada. Ficar por Lisboa, Espanha, Holanda, Inglaterra? Pergunto a quem está lá fora como está a correr. E muitos me respondem:
- "Entre ser pobre num país estrangeiro, perfiro ser pobre ao pé da minha família."

Esta é uma frase que já ouvi de quem esteve na Dinamarca e na Holanda. Parece que o ordenados que se estão a praticar lá fora também só dão para pagar o quarto alugado e as respectivas contas, e temos de continuar a recorrer aos pais para o resto das despesas...
Com estas noticias a coragem de por malas as costas e ir embora de Portugal não é muita!
Gostaria que me pudessem dar a vossa opinião ou a vossa experiência.

Pedro Leao Martinho said...

A questao prende-se com o facto de querer algo melhor para nós, e nao falo exclusivamente a nivel monetário...trata-se de uma pessoa poder ter a sorte de passar a ser responsável por um projecto, sermos ouvidos nas nossas opinioes e poder participar activamente num qualquer projecto, eu sei lá... a questao monetária, que foi a que me puxou antes de todas e com mais força para fora de portugal, hoje é secundária, pois comecei a sentir uma certa realizaçao pessoal que me dá muita alegria todos os dias. É claro que há altos e baixos mas temos que acreditar que podemos sempre fazer melhor porque aqui somos respeitados como um arquitecto e nao como um mero estagiário, ou recém-licenciado que pouco sabe... fazemos parte de uma equipa/família que é ouvida em cada reuniao, e em cada decisao que se tome, quer estejamos nesse determinado projecto ou noutro! É tudo uma questao de perspectiva e a maneira de olhar para o trabalhador. A mim parece-me cada vez mais que aqui se respeita cada trabalhador, quer ele tenha mais ou menos experiência, é indiferente o nível que atingimos.