12.12.07

Marta, Licenciada em Gestão, Luxemburgo

Entrei para o curso de Gestão da FEP em 1994, concluí-o em 2000, já a trabalhar para o ICEP, no Gabinete do Investidor. Aceitei o emprego porque acreditava no prestígio do instituto e porque a Administração Pública era uma coisa segura – diziam-me os meus pais na altura, eles funcionários públicos, hoje em risco de serem despedidos, apesar dos mais de 30 anos de serviço em exclusividade. O contrato com o ICEP acabou ao fim de ano e meio, exactamente na altura do “11 de Setembro”. Começava a crise. Durante 3 anos, enviei currículos, inscrevi-me no centro de emprego e ainda fui a algumas entrevistas. Tirei proveito dos cursos do IEFP, na área de informática porque eram os únicos disponíveis (mas uma paixão), e fiz parte das estatísticas falaciosas – a taxa de desemprego diminui quando abrem estes tais cursos e porque quem se inscreve, é obrigado a desinscrever-se do centro do emprego. Encontrei várias pessoas na mesma situação que eu, mas nem por isso me senti menos “inútil”. O meu namorado na altura, fotógrafo, curso tirado na Bélgica, trabalhava em freelance para a TVI, mas como até as novelas entravam em crise, decidiu vir para o Luxemburgo, onde moravam os pais na altura.Um mês mais tarde, disse-me que não voltava e perguntou-me se não queria vir até cá. Ao fim de muitas hesitações lá decidir vir, e dias antes da partida, deu-me o número de telefone de um amigo que trabalhava numa empresa portuguesa e que procurava alguém “polivalente”. Mal cheguei, fiz a entrevista, e uma semana mais tarde comecei a trabalhar. Contrato de 6 meses, salário mínimo para um licenciado no Luxemburgo – de conhecimento público, posso dizer que os 1650 euros na altura davam para pagar o estúdio e para uns pequenos luxos. Ao fim dos seis meses, já sem o namorado, mas eternamente agradecida, ofereceram-me um contrato sem termo. Já lá vão mais de dois anos e meio. Até há uns meses, pensava arriscar a minha sorte em Macau, onde há falta de gente nos bancos, porque “tudo foge” para os casinos. Não teria sido difícil, a minha irmã vive lá há 6 anos, trabalhou num banco, até que se despediu e se lançou por conta própria (http://www.nataworld.com, passo a publicidade, posso?!?). Corajosa e feliz, porque está a conseguir concretizar um projecto que sempre teve – “português”, mas longe de Portugal. Bem, quanto a ir para Macau, a vida tem destas coisas, conheci um belga e os planos mudaram - fico por aqui. Gosto desta sobre-organização germânica e suporto uma certa antipatia dos nativos aos estrangeiros porque se trata afinal de (mais) uma invasão – por outro lado, é dos estrangeiros que este país vive. E não fico ofendida quando um emigrante português mete conversa comigo (porque se topa à légua que sou portuguesa), e me pergunta, tratando-me imediatamente por “tu”, se não faço a “ménage”. “Olhe, por acaso não...”

Pouco tempo depois de chegar cá, escrevi a um amigo meu: “Por aí, ouço dizer que a coisa está preta e recebo sérias ameaças perante a eventualidade (por ora afastada) do meu regresso. Evito os telejornais, leio as parangonas do Público e arrisco ler o texto se achar que não me vao cair mal o café e o "pain au chocolat".” Ao fim de 2 anos difíceis, de uma vida de casa/trabalho, trabalho/casa (sem que em momento algum tenha pensado em regressar a Portugal), já não sinto a mágoa que sentia em relação a um país que me “maltratou”, nem que “só estou bem onde não estou...”. Vou a Portugal de 3 em 3 meses, para estar com os meus pais e com os meus amigos, mas não tenho saudades de Portugal, da vida em Portugal (diga-se, compro azeite Gallo e ovos moles, nas antenas parabólicas lê-se “TV Cabo”, vou a uma loja e acontece falar em português...) . Se tenho orgulho em ser portuguesa? Não será a nacionalidade um acidente? Nasci em Lisboa porque os meus pais resolveram voltar para Portugal quando abandonaram África; a minha sobrinha é portuguesa de Macau; o meu filho será belga e/ou luxemburguês e falará, além destas duas línguas, o português e o inglês.

Ouço (e leio) muitas vezes o discurso de que Portugal tem as praias, bom clima, pessoas acolhedoras, vida social e cultural. Sim, e...? Verdade, parece-me, que o típico português diz mal do seu país. Seja, é cultural, da mesma forma que os franceses são os melhores “self-marketeers” europeus. Mas junto-me a essas vozes de “sentido crítico apurado”, ressalvando contudo que todos os meus amigos estão em Portugal e a maioria está satisfeita com a sua situação. Questão de sorte, experiência, destino, cunha... quem sabe?

Nem tudo é perfeito no Luxemburgo, claro, os preços das casas são proibitivos e não param de aumentar, ir a um restaurante é um pequeno luxo – e não há mar! Mas não noto grande diferença quando faço compras aqui no Auchan ou no Jumbo em Aveiro. Mesmo grupo, países diferentes, poder de compra pela metade? Comprar um carro é mais fácil, não há imposto automóvel. Mas electricidade e gasolina também aumentaram. A única diferença é que, quando dizem que estes aumentos fazem parte das medidas de apoio ao emprego, acredito que aquilo que pago a mais vai ser bem utilizado – mesmo que o governo seja declaradamente de direita. Acrescente-se: o Luxemburgo é um país pequeno em superfície e população, mais fácil de “controlar”, o que o torna num país de excepção – além da brilhante ideia, digo eu, de fixar as “comunidades europeias” e de criar uma praça financeira “liberal” num país de agricultores.


Bem, outras rosas e outros espinhos ficam por “colher”. Boa sorte para quem fica, para quem parte e para quem regressa.

11 comments:

Era uma vez um Girassol said...

Esta história conheço bem!
Que o meu neto/a seja luxemburguês ou belga não me importa...
O que eu quero mesmo é que esse país e, dum modo geral, os paises estrangeiros, continuem a receber e a acarinhar os nossos jovens licenciados, dando-lhes uma situação desafogada e oportunidades de trabalho que não encontraram no seu país natal.
Sejam felizes...mesmo que seja lá fora!
Beijinhos da flor

p.j. said...

Ola!

Tive uma proposta para ir para o Luxemburgo, mas nao sei ate' que ponto compensara' pois ja nao estou em Portugal.
Pelo que vi alugar um apartamento no Luxemburgo e' muito dificil.
E tu falas em precos proibitivos pelo que nao estou surpreendido. Mas podes dizer-me ao certo quanto custa um studio ou um T1 por mes?

Alem disso o que ouvi do Luxemburgo e' q e' um pais muito chato para se viver, onde nao acontece nada e quase nao ha' vida social nenhuma. Confirmas isto?

o_cao_que_morde said...

Venho comunicar que este Blog foi votado para Os Melhores Blogs de 2007

Anonymous said...

Olá, P.J..

Tudo o que disseste é verdade, mas é também uma questão de sorte. Eu alugava um estúdio de 36 m2 e a precisar de obras em Bertrange, uma zona sossegada e cara a cerca de 7 km do centro, por 682 euros, fora electricidade, que aqui é paga à parte, mas incluindo água, aquecimento e lixos (as ditas "charges"). Quando resolvi mudar, visitava o site www.athome.lu de 15 em 15 mn, até que encontrei um T1, 60 m2, lugar de garagem, cave e lavandaria (i.e.espaço para colocares a máquina de lavar), em Neudorf, a 3 km da cidade, 10 mn de carro, outros tantos de autocarro, pela módica quantia de 900 euros. Paguei 2 meses de renda de caução e 1 mês à agência imobiliária. Claro, quanto mais te afastares da cidade, mais barato é, e há zonas “piores” e “melhores”… Ah, e comprar é outra história, se bem que imagino que os preços em Lisboa não andem muito longe do que se vê por aqui…
Quanto à vida social, eu passei 2 anos isolada – mas não sou exemplo, sou “bicho-do-mato” e, comedidamente, até gosto. Além disso, várias pessoas têm concordado e dito que não é fácil. Mas há sempre actividades culturais e se gostas de passeios na floresta (tão bucólico!), ou BTT, ou mesmo escalada (que tive oportunidade de experimentar, até que engravidei…) então o Luxemburgo é ideal. Vida nocturna, também não falta, assim como imensos restaurantes e bares. É uma questão de encontrares um “grupo” – óbvio, como em qualquer sítio onde se é “novo”. Respondi às tuas perguntas?
Já agora, e não és obrigado (ou obrigada?) a responder, claro, qual era a empresa?

Marta

Anonymous said...

Hum, desculpa, "obrigado a responder..."...

Marta

p.j. said...

Uhm...

Assim a' primeira vista os precos que me falas a alguns Km do centro sao mais ou menos os mesmos que no centro de Dublin...
Mas esta cidade e' estranha, pois o centro acaba por ficar mais barato que muitas zonas mais perifericas onde estao as faculdades e/ou shoppings da moda...
Tambem as casas sao mais antigas no centro, claro esta'...

Mas se dizes q quem aluga e' q paga a comissao 'a agencia imobiliaria ai', isso faz uma grande diferenca, pois aki quem paga e' o senhorio! Mas mesmo assim estava a' espera que os precos fossem superiores pois pelo q vi neste site ( http://www.sublet.com/Area_Rentals/Luxembourg-Luxembourg/Luxemburg_Rentals.asp ) aparecem apartamentos p alugar quando o rei faz anos :)

Quanto a empresa eu ia trabalhar como freelancer durante 6 meses, mas depois voltava para a Irlanda outra vez, ja' com mais experiencia nessa area.
E' mais por isso q estou a pensar nisso.

E' que trabalhar por nossa conta e' muito mais compensador e nao faltam projectos em Dublin, Amsterdao, Bruxelas, Luxemburgo...

Anonymous said...

Eu não sou graduado contudo vivi uns anos no Luxemburgo, posso dizer que os casos que conheci estão muito longe dos casos de sucesso aqui relatados. Muitos graduados portugueses chegam lá cheios de espectactivas, mas acabam nos empregos que menos interessam ou seja limpezas, obras e restaurantes. Um conselho, essas tais "empresas portuguesas" no Luxemburgo são as piores, têm como especialidade explorar a mão-de-obra portuguesa mais barata, portanto evitem desse tipo de empresas a todo o custo...

Anonymous said...

Portanto, basicamente tu safas-te com base nas cunhas. Tu conheces este, que conhece aquele, que se relaciona com fulano...

Não te reconheço grande mérito, honestamente.

Anonymous said...

Caro(a) anónimo(a):

Chama-lhe cunha, chama-lhe oportunidade, chama-lhe estar no sítio certo à hora certa, chama-lhe "sorte dos diabos"!!! Seja! Não vejo nisso qualquer ofensa, mas também não me vou despedir por causa disso, certo? Poderei, sim, mudar de emprego, a minha experiência já mo permite. E se for através de "alguém que conhece alguém", porque não? Depois de 3 anos a enviar currículos e a ir entrevistas, do discurso "tem demasiadas qualificações"... Bom seria se ninguém tivesse que passar por isso - e por bem, bem pior! Assim o espero. Mas deixemo-nos de fundamentalismos: se conhecesses alguém que conhecesse alguém que conhecesse o Bill Gates e que te propusesse um emprego na Microsoft (não foi DE TODO o meu caso, comecei como secretária), recusavas? Dou-te o benefício da dúvida e digo-me que ponderarias a hipótese de aceitar... Porque nunca se sabe...

Marta

Anonymous said...

Olá Marta!

Gostaria de agradecer o teu post. Não sei porquê mas fez me sentir alguma esperança :)

Eu sou licenciada em economia e relações internacionais, e como experiência tenho apenas 6 meses numa empresa na China...depois de 5 meses em Portugal sem conseguir encontrar emprego decidi experimentar no Luxemburgo! Quando encontrar emprego escreverei um post :)...espero que seja brevemente!

Obrigada!

Bjocas

Marta J - Dudelange

Anonymous said...

Olá, Marta, tudo bem?

Espero que por esta altura já tenhas arranjado emprego e que ainda não tenhas "postado" porque andas super ocupada! Caso contrário: já te inscreveste nas agências de interim, Adecco e Cia? Falas bem inglês (existe um défice de gente a falar um mínimo de inglês, francês que se preze só fala francês, LOL)? E tentar nas instituições europeias, difícil, mas nunca se sabe? Gostas de cá estar? Eu estou completamente rendida a este país bucólico... :) Boa sorte, Marta@Lux