27.9.07

Marta Calado, Direito, Amesterdão

Há semanas que andava a prometer a mim própria publicar aqui algumas impressões sobre a minha vida em Amesterdão, após o repto re-lançado pelo GAP há alguns dias, aqui vai:

Estou a viver na Holanda há quase um ano (cheguei a 28 de Outubro de 2006) e a minha estadia aqui vai-se prolongar, por pelo menos, mais dois. Não vim a aventura e não dei um salto no escuro... estou aqui a viver como "expatriada", com todas as condições inerentes ao "estatuto" (casa, apoios, viagens...).

Vim porque quis, precisava de algo mais... Vim a procura de uma melhor qualidade de vida. E de uma nova experiência. Sempre soube que a minha vida passaria por um período a viver fora, só não sabia quando e em que condições. O bichinho, como em tantas outras pessoas, instalou-se quando vivi/estudei durante 6 meses em Estrasburgo ao abrigo do programa "Erasmus".

Quando vim, vivia razoavelmente bem para os padrões nacionais, tinha casa própria (ou do Banco, conforme queiram ver o caso), tinha emprego estável e com razoáveis perspectivas de evolução profissional. Mas não estava feliz.

Tal como alguns outros Portugueses que aqui deixaram os seus relatos, confesso-me bastante critica de alguns aspectos da sociedade portuguesa, e ainda que não tenham sido decisivos na decisão da minha partida , também não funcionaram como factor de atracção ou de contrapeso as razoes que me levaram a partir.

A experiência aqui tem sido rica a todos os níveis...

Profissionalmente, os Holandeses estão numa liga bem diferente da nossa, em que a produtividade e muito superior a Portuguesa, trabalhando muito menos horas,

Socialmente, têm alguns problemas, mas a forma como tratam os idosos e as crianças são sintomáticas de uma rede de apoios social bem mais abrangente e completa,

Os Holandeses não são um povo quente e acolhedor, mas são tolerantes e respeitadores, cada um vive a vida como quer sem se intrometer na privacidade alheia,

O custo de vida e mais caro que em Portugal (talvez 10/15% se o compararmos com Lisboa), mas o nível de vida e incomparavelmente melhor se se tiver em conta a disparidade salarial (cá, o salário mínimo são 1.100 euros/mês),

Têm mais orgulho na sua rua, bairro, cidade... são mais limpos e civilizados e vivem de janelas abertas para o mundo. São muito menos preocupados com as aparências e com a ostentação. Vivem mais fora de portas apesar de o tempo ser realmente difícil de suportar para alguém que adora o sol.


Obviamente nem tudo são rosas,

A somar a distancia da família e amigos juntam-se alguns aspectos menos positivos dos Holandeses: não dão passagem aos peões nas passadeiras, não cedem lugares nos transportes aos idosos, são tão directos que roçam a ma educação e reclamam muito; sendo "liberais" têm dificuldade em ver "outside de box".


Mas tudo isso faz parte da experiência, do lidar com realidades diferentes, com uma cultura que, apesar de "Europeia" poucas semelhanças tem com a portuguesa. Não sei o que o futuro me reserva, se irei ficar por aqui ou regressar a Portugal, ou quem sabe, tentar viver algum tempo noutro local, mas sei que ninguém passa por esta experiência incólume. A transformação de como nos percepcionamos e como percepcionamos o mundo e extraordinária. Recomendo a todos quanto o possam fazer.

"Não sei para onde vou, mas estou a caminho..."


Para quem tiver curiosidade: http://vidaemamesterdao.blogspot.com

Estou disponível para quem quiser saber mais via martasgcalado@gmail.com

Obrigada 27 de Setembro de 2007

1 comment:

Joana Benard da Costa said...

Marta,
tens uma visão muito apurada, crítica e objectiva do que observas na terra das socas. O 'modus vivandi' dos povos do Norte da Europa é muito igual entre si e por isso tão distante do nosso que é mais fervoroso. Penso que deve ser gratificante estar 'in loco' e sentir a enorme diferença, e tu tens essa sorte. ;-)
Muitas felicidades, toda a sorte do Mundo!