21.6.07

Maria João Calais Pedro, Linguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses e Ingleses, FLUL. Pittsburgh, EUA

Em 1992 entrei para a Faculdade de Letras de Lisboa para tirar o curso com o nome mais comprido do mundo, com certeza, Línguas e Literaturas Modernas (a.k.a. LLM), variante de Estudos Portugueses e Ingleses. Após 4 anos tinha acabado a licenciatura e alimentava este desejo de ser estudante Erasmus, de preferência, num país de língua inglesa. Houve a oportunidade (ténue) de ir para Limerick, Irlanda, mas parecia tudo incerto e mal organizado e as entidades paternas não estavam nada de acordo (na altura não achei graça às entraves familiares, mas, agora, vejo que tinham razão e que o não ter ido para a Irlanda me levou a outras paragens). Fiz então o primeiro semestre do estágio em Lisboa e no segundo marchei-me para La Laguna, Tenerife, Ilhas Canárias. Aterrei, com uma amiga, no Atlântico tropical, vendo o Teide nos dias de céu limpo e La Gomera através das nuvens baixinhas. Foram 4 meses maravilhosos em que pela primeira vez vivi mesmo sozinha e fiz amigos dos 4 cantos do mundo. Ainda mantenho alguns, graças à minha persistência para a escrita e a paixão pelas viagens. Voltei com óptimas notas e um bronzeado notável, querendo viajar ainda mais para rever amigos e conhecer mundo. Candidatei-me ao estágio numa escola e fiquei, por apenas duas posições, sem vaga, portanto concorri ao Algarve, visto que os meus Pais moram lá, e consegui um horário incompleto no Alvor. Foi um ano recheado de novas coisas, sobretudo para quem nunca tinha ensinado a sério numa escola. O melhor conselho que guardo desta minha primeira escola é: "Atira-te a eles [alunos] senão eles atiram-se a ti!". Bem verdade! Como tinha ganho uns cobres como professora, consegui ir ver a Barbara a Áustria no Carnaval e no Verão, na euforia da EXPO 98, ir fazer o inter-rail pela Europa fora com dois amigos, a Giovanna e o Alferes. Conheceria nessa viagem a minha "alma peregrina", mas estava longe de saber das nossas futuras andanças por terras do tio Sam...
Aprendi muito na tal escola algarvia e no ano seguinte fui a segunda a escolher uma escola e escolhi a Secundária da Cidade Universitária que, entretanto, já veio abaixo. Tudo indicava que iria continuar na carreira docente, mas não. Num regresso a Faculdade de Letras, reencontro o tal viajante de inter-rail, o Vasco, e descobrimos que temos tudo em comum (isto para abreviar bastante a nossa grande história de amor!). Passo um ano no Liceu Camões. Casamos em Maio de 2000, quase no fim do ano lectivo e vamos de lua-de-mel surpresa (para todos os convidados) para a Austrália, cumprindo um sonho que eu tinha desde os meus 15 anos. No ano seguinte consigo (este e o verbo, infelizmente, para o ensino em Portugal) um horário incompleto no Liceu Filipa de Lencastre. No meio disto tudo, sempre tive sorte nas escolas onde fui ficando colocada. Entretanto, preparamos a nossa candidatura para as bolsas Fulbright, para fazermos mestrado nos Estados Unidos. O Vasco consegue uma e eu não, mas vimos na mesma os dois. A 11 de Agosto de 2001, precisamente 1 mês antes do 9/11 que mudou o mundo, aterramos em Pittsburgh, Pensilvania, onde o Vasco iria fazer Mestrado na Carnegie Mellon University. Eu tratei da minha autorização de trabalho e após um mês, já a tinha, portanto comecei à procura de emprego nas mais diversas áreas, não necessariamente na do ensino. Nestes 6 anos de vida americana, já tive os seguintes empregos: nanny, library clerk, research assistant, executive assistant, Portuguese teacher, Spanish transcriber (não me peçam para vos traduzir estes cargos todos). Entretanto nasceram as nossas duas filhas, a Beatriz (2003) e a Mariana (2005) e eu passei a trabalhar em part-time como executive assistant da Graduate Student Assembly de Carnegie Mellon. Entretanto vivemos 4 meses em Mountain View, Califórnia, aquando do estágio do Vasco na Honda e agora mudámo-nos para Exton, Pensilvania, por 4 meses, por causa do estágio na Siemens Medical Solutions. Segue-se Mountain View para um estágio na Google.
Narrei os factos, as datas, mapeie o nosso trajecto, como tenho feito no mapa da sala onde 42 estados dos 50 já estão conquistados. Agora resta-me falar dos sentimentos em relação a este emigrar para um país estrangeiro, onde já não me sinto muito estrangeira. Afinal a realidade americana é aquela que nos acompanha desde quase sempre, mais que não seja pelos filmes de Hollywood e pelos anúncios da Coca-cola que faziam as minhas delícias de adolescente. Quando finalmente encomendamos chinese take out, as embalagens são mesmo cubinhos de papel branco, com uma pega em metal fininho e pode-se mesmo comer de lá de dentro com pauzinhos. À filme. Os carros são mesmo grandes e as portas abrem ao contrário, coisa que a Rita sempre me disse e que eu sempre achei estranha, mas que agora confirmei. E as brownies são mesmo a maior concentração de chocolate por centrímetro cúbico, como disse a também bolseira americana Clara Pinto Correia. Já estou tão habituada a esta América que já me custa salientar as diferenças, mas há muitas. Voltámos a Portugal, ao fim de 2 anos e meio de ausência, e já achámos diferenças - nos preços (caros), nas ruas (sem passeios, nem rampas), nos carros (mínimos), na moda (bem mais gira), nas comidas (bem melhor). E também ja começámos a sentir saudades da nossa casa aqui. É estranho pensar nisso e sentir isso, mas a verdade é que 6 anos são 6 anos e quase todos os firsts nos tem acontecido aqui - ter filhos, comprar carro, atravessar um país de lés-a-lés, fazer um mestrado. Acho que aqui temos mais tempo, mais flexibilidade, mais qualidade de vida, mais facilidade para estar com as filhas. Em contrapartida, o sistema público de saúde é inexistente e o consumismo é desenfreado, nas escolas públicas parece que não se aprende muito e o fast food reina. Estaríamos melhor se tivessemos a família e os amigos por perto e o mar para espraiar o olhar, assim vamos matando saudades via net, telefone, webcam, correio e avião... Assim vamos lendo blogs às tantas da matina para ver quem são os outros GAP, ouvindo a RFM através da net para ainda sabermos qual a diferença horária (5 horitas, meus caros!) e estando atentos ao Portugalito para sabermos quando é altura de voltar aos pastéis de nata, ao caldo-verde, aos papo-secos, à cerveja com tremoços, ao frango assado e à falta de pontualidade com que poucos se parecem importar...

3 comments:

Era uma vez um Girassol said...

Gostei desta história também... Depois cheguei à conclusão interessante que afinal as pesooas que saiem daqui têm saudades mesmo é dos petiscos da santa terrinha!!!!
Caldo verde, pastéis de nata, bica, frango assado...
Bem, sabem o que é que a minha filha socióloga resolveu fabricar em Macau?
Pastéis de nata...!!!
Seriam também as saudades que a moveram????
Bjs

chiqui said...

Maria Joao,

gostei imenso da tua historia. Conquistar 42 estados naos e tarefa nada facil...
Eu tambem estou a viver nos EU, e identifiquei-me com essas diferencas culturais que referes no teu post.
Obrigada pela tua historia
bjos (so nos os portugueses, para enviarmos bjos num comentario da internet LOL)

Natalya said...

Thanks for writing this.